segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A VIDA EM ROMEU E JULIETA

"Comecei a pintar aos 25 anos por incentivo do meu esposo Manasses Borges que é filho de J. Borges (José Francisco Borges) renomado Xilogravurista e Cordelista pernambucano". Diz Rosângela Borges



ROMEU E JULIETA
COMO ESCAPARAM DA TRAGÉDIA 
NUMA NAVE NORDESTINA

UM ROMANCE PARAIBANO 
PARA O TEATRO DE MAMULENGOS

por Numa Ciro


Teatro Candido Mendes / Ipanema 
Outubro/ Novembro/ Dezembro 2013


Este Romance faz parte do Monólogo Cantante 
A Peleja da voz com a Língua - O Amor



Cena do Teatro de Mamulengos




Romeu
Julieta! Julieta! Pareces morta!!!
Não consigo acreditar.
Jurei contigo morrer,
mas começo a duvidar...

… se vale a pena partir
sem a certeza de achar
do outro lado da vida
o que mais quero encontrar.


Morreste de amor por mim.
Algo me diz que não devo arriscar.
Sai pra lá punhal safado.
Cadê o frade pra nos salvar?


Mamulengo



A madrugada já vem.
Ouço ao longe a cotovia.
Se eu morri, ressuscitei.
Quero ver a luz do dia.


Julieta
Não é a cotovia, é o rouxinol:
Canta para quem anoitece.
Na versão do bardo inglês,
anoitece mas não amanhece.

Boneca de Pano


Romeu
Julieta, será que ouço a tua voz?
Estarei louco? Sonhando, talvez!
Eu tento escapar da morte
e tu me salvas da viuvez!


Cena do Teatro de Mamulengos



Julieta
Romeu, Romeu, tu não morreste!
Não preciso, portanto, me matar.
Que alívio, fujamos do autor:
ele planeja nos suicidar.


Não encontrei ainda a referência autoral desta imagem


Romeu
Julieta! Como Escapuliste?
Meu docinho de goiaba!
Pela nossa vida amorosa,
Shakespeare é quem se atrasa.
















Julieta
Romeu Romeu, queijinho meu!
Há mais perigo em teus olhos
que já viram os olhos meus.
Ai meus olhos! Ainda não viram tanto.
Vai cegar-me a luz dos teus.






Romeu
Tu vês perigo em meus olhos?

Queres cegá-los? São teus.
Se o amor é cego, Julieta,
um cego sábio e feliz serei eu.


NOEMISA
Minas Gerais/ Vale do Jequitinhonha


Julieta
Apressemos o passo:
isso vai dar em tragédia.
Não quero morrer tão nova,
prefiro viver na comédia.


Mamulengos de Caruaru - Pernambuco


Romeu
O autor, com o atraso do frade,
quis imitar as desgraças mais cruéis,
tal a de Píramo e Tisbe.
Prefiro viver nos bordéis.





Píramo e Tisbe*

 

Julieta
Lets go to América!
Aquela! debaixo da linha do Equador,
onde não existe pecado
e tem gente de toda cor.



Mamulengos e Bonecas de pano nordeste Paraíba e Pernambuco


Romeu
Pampas, praias, caatingas e cascatas.
Florestas misteriosas, jardins, selvas e matas.
Sambas, maracatus, bossa nova e emboladas.
Teatro de mamulengos, coco de roda e congadas.  






Julieta

Vamos logo po Brasil,

Onde a mulher tem razão. 

Dona Flor tem dois maridos

E Maria Bonita?

Desbandidou Lampião. 







Romeu
Mas primeiro vamos passar
pelo reino de Portugal.
Conhecer o Tejo em Lisboa
e a sua Indústria Naval.





Julieta

Caravelas, Romeuzinho!

Quero visitar em Alcobaça 

os túmulos de Pedro e d’ Inez:

Não puderam escapar da desgraça...




Túmulos de Pedro e de Inez**









ROMEU
Pois…
Infelizes os dois sucumbiram
às leis da casa real.
Nossas casas que se danem,
nosso AMOR é que é Real.


Julieta
Mais rápido, Romeu!
não quero meu nome naquela expressão:
“Agora é tarde, Inez é morta”.
Nem morta! quero tal coroação.





Romeu
Brasil, lá vamos nós!
Pra ROLIUDE do nordeste.
Quem era besta de morrer?
Quem quiser que faça o teste.


Julieta
Saímos daquela Sss-cripta,
nem Shakespeare nos viu.
Enganamos todo mundo.
Atrás de nós?! Nem psiu.




Letreiro na entrada da cidade de Cabaceiras - Região do Cariri Paraibano**.



na Roliude Nordestina 

 Romeu 

Psiu Psiu... ouviu psiu? 

Já ficamos famosos!

Quem passa por nós... já vem sorrindo!

O olhar do amor nos olhos amorosos

 



 Julieta

Esta terra é curiosa.

Aqui chegamos, tivemos sorte!

Já sabiam da nossa história:

De como escapamos da morte



NOEMISA
Minas Gerais/ Vale do Jequitinhonha


 Romeu

Ontem soube, nos pubs deles

- aqui se chamam botecos -

que os artistas inventaram

de fazer nós de bonecos.


DONA ISABEL 
Minas Gerais/ Vale do Jequitinhonha


 Julieta

Hoje na feira, até chorei,

Romeuzinho... eu já ia te contar:

Tem nós dois em todo canto,

em todas as poses de amar.



 

Julieta

Artes de barro, de louça, de pedra e papel;

de tinta, caneta, de pano e de pau.

E assim, feito Arte, vivemos

em Feiras, Museus... 

Na Casa do Pontal!!!



ZÉ CABOCLO
Alto do Moura/Caruaru - Pernambuco

 


* Píramo e Tisbe - Livro IV das Metamorfoses - Poema Épico do poeta latino Publius Ovidius Naso (43 a.C./17 d.C.). 

** Não encontrei ainda o nome do Autor desta Imagem


**O Lagedo de Pai Mateus, no município de Cabaceiras, no Cariri paraibano, é um dos mais belos monumentos do relevo brasileiro. O Letreiro, de 80 metros de comprimento por cinco de altura,  "Roliúde Nordestina" vem do fato de ter sido escolhido como locação de pelo menos 30 filmes entre eles O Auto da Compadecida, de Guel Arrais; Viagem através do Brasil e São Jerônimo, de Júlio Bressane;  Cinema Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Além de se constituir como um dos cenários mais belos do mundo, exibe uma luz e um céu esplendorosos é o lugar que menos chove no Brasil. Isso atrai os produtores - pelo baixo custo do orçamento, porque dificilmente perderão dias de filmagem por mudança do clima - e os realizadores pela exuberância da topografia e da flora.


PAISAGENS DO INTERIOR

Por Numa Ciro


Jesus Helguera

1.
Moça rindo na janela pastorando seu amor
Um grupo de analfabetos votando no seu doutor
Papagaios indiscretos imitando gravador

cruz na beira da estrada
sala-de-estar na calçada
faca-peixeira afiada
e santa em cima do andor

Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior





2.
Tem folheto cordelista vendido em banca de feira
Matuto em lombo de burro com relógio na algibeira
Guinés cantando “Tô fraco” e gado comendo em cocheira

surdo chamado de mouco
as santinhas do pau-ôco
conchas de quenga de côco
e quengas que vendem amor

Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior



Cariri

3.
Uma cabra displicente atravessando a rodovia
um pavão misterioso namorando a cotovia
onça pintada das brabas bafejando a cantoria

pra qualquer dor,  um cachete
pra viajar,  marinete
pro escuro, frachilete
Lampião tem seguidor

Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior


O Encontro 
Samico 

4.
O sol caindo na serra e a lua subindo, vem ver!
Por um momento se olham: morrer parece nascer
quem viu os dois nesse instante, jamais consegue esquecer

E pra cantar o elogio
desse encontro de amor
criou-se o tal desafio:
contador-e-cantador


Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior




5.
Mas existe a tal mudança que mexe em tudo e jamais
engana o tempo que passa e passa o tempo na paz
Pois não é que a tal mudança mexeu na moça! e o rapaz?

Agora andam de moto
não querem vender seus votos
da internete, devotos
o povo sabe o valor

Isso agora já se vê em paisagens do interior                                 



Paraíba











terça-feira, 18 de novembro de 2014

HOMENAGEM A MANOEL DE BARROS



Foto retirada da internet 
sem nome do autor

Poema / Colagem com os títulos dos seus livros


foto sem autoria retirada da internet


Retrato de Manoel
tirado do Barros

por Numa Ciro



Encontrei no
Tratado geral das grandezas do ínfimo
a indicação do livro
Poesias
no qual
O fazedor de amanhecer
conhecido também como
O guardador de águas
utilizou a
Gramática expositiva do chão
e assim engendrou com a
Matéria da poesia
um
Compêndio para uso dos pássaros
verdadeiro
Concerto a céu aberto para solos de aves
com 
Arranjos para assobio

Tinha até oferecimento
Cantigas por um passarinho à toa

e pareciam
Poemas concebidos sem pecado
como se um
Menino do mato
nos seus
Exercícios de ser criança
tivesse rabiscado um
Poeminha em língua de brincar

Aqueles rabiscos eram letras de ensinar ao mundo que no
Livro das ignorãças
ou então no
Livro sobre o nada
há uma sabedoria secreta que se pode decifrar à luz dos
Poemas rupestres
e poderá ser alcançada por quem falar a língua escrita no
Livro de pré-coisas

Só mais uma coisa
Afie o seu olhar para abrir a
Entrada
do
Ensaio fotográfico
e veja a
Face imóvel
feita para a capa da obra

Ali podemos ver a imagem real do poeta em seu
Retrato do artista quando coisa.

sábado, 15 de novembro de 2014

NATUREZA VIVA - TÉCNICA: ACRÍLICA SOBRE PELE

O encontro de Numa Ciro 
com
 Hildebrando de Castro 


ABL

1986


O Nascimento de Numa Ciro



JORNAL DO BRASIL

Ainda a chamavam de Socorro Brito


ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
1986




Criamos esta Performance Natureza Viva - Acrílica sobre Pele
O pintor fazia do meu corpo a sua tela
Eu cantava Surabaya Johnny - Bertholt Brecht e Kurt Weill 
- versão de Sílvia Vergueiro -


A escolha pela bomba atômica em explosão
foi em protesto contra as Usinas Nucleares 
e pelos descuidos com essas armas mortíferas, tendo como exemplo o  a(in)cidente com o césio em Goiânia, GO.

Nossa performance fazia parte do projeto de ocupação, por artistas marginais, do Centro Cultural do Brasil na ABL 




Meses depois, a Performance evoluiu na pista para um traje de gala
Era um vestido de mini saia.
O pintor vestia a modelo peça por peça


A Primeira Performance 
em que era vestida para cantar
Aconteceu na Abertura da Exposição
Os Iconógrafos
 no Parque Lage
O fotógrafo Walter Tochtrop era um dos artistas Iconógrafos.
Numa Ciro foi a modelo que pousou para o seu trabalho 
Giros D'Alma.

Era uma vez

Abrimos a exposição

      Fotos da cineasta Patrícia Moran 

 












Nesta performance Natureza Viva - Acrílica sobre pele, onde era vestida para cantar

I



Colocava a faixa original One more kiss, dear – Vangelis  
da Trilha sonora do filme Blade Runner - Caçador de Andróides como base para cantar a minha versão 


Replicante

Quantos sonhos
Tanto faz que me deixes
Sempre estás
As cortinas e as folhas ao tempo
Fazem cenas de encontrar

Na penumbra
Passo a passo
Tua sombra diz adeus
Não  nem quero saber se és um sonho
Implicante olhar

Imortal espanto esse de existir
Beijos trazem céus ausentes
Morte esconde o tempo
Replicante dor
Quem não feriu seu limite?

Quando fazes assim
E te escondes
Eu tenho medo
De que não sejas verdade
Nem a certeza
De caber aqui
Nos mitos
Dos meus loucos pensamentos

Quantos sonhos
Tanto faz que me deixes
Sempre estás
As cortinas e as folhas ao vento
Fazem cenas de adeus


II

Damas do Planalto

                                                           de Tânia Christal


Eu fui totalmente dominada pela frigidez do asfalto
Eu sou nada mais
Nada mais que um operário

Beijos abraços 
Certos afagos
A vida só me dá trabalho

Beijos abraços 
Certos afagos
A vida só me dá trabalho

Tão pensando o quê êêê?
Tão pensando o quêê êêêêêêêêê...
Tão pensando o quê êêê?
Tão pensando o quêê êêêêêêêêê...

Eu fui totalmente equivocada
Pela solidão do asfalto
Eu sou nada mais
Nada mais que um proletário

Beijos abraços 
Certos afagos
A vida só me dá trabalho

Beijos abraços 
Certos afagos
A vida só me dá trabalho

Tão pensando o quê êêê?
Tão pensando o quêê êêêêêêêêê...
Tão pensando o quê êêê?


Tão pensando o quê?
Tão pensando o quê?
Tão penando o quê?


Ensaio fotográfico 
por 
Walter Tochtrop

para o vídeo Natureza Viva - Acrílica sobre pele 
de
Patrícia Moran e Cláudia Bolshaw


Hildebrando de Castro e Numa Ciro














sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A PELEJA DA VOZ COM A LÍNGUA - A SAUDADE

Quarta-Feira, 24 de Setembro, 2014, no Itau Cultural - São Paulo, foi a estreia do último monólogo que compõe o Tríptico.

ROTEIRO


Fotografia Daryan Dornelles


A Peleja da Voz com a Língua

A SAUDADE

Para Santuza Cambraia Naves
  

Epígrafe
Sem título - Paulo Henriques Britto

Abertura
Sabiá lá na gaiola - Hervé Cordovil / Mário Vieira

A volta - Numa Ciro

Assum Branco - Zé Miguel Wisnik

Palavraausência - Franco Terranova, in Palavraausência

Mulher Chorando - Flaviola / Numa Ciro

Sobre o Canto XI da Odisseia de Homero - Numa Ciro / Henrique Cairus - traduções de Carlos Alberto Nunes e Henrique Cairus  

Cantigas do Maio - José Afonso / Quadra popular portuguesa
Excelência - Flaviola / Numa Ciro
  
La Martiniana - Andrés Henestrosa / cantiga tradicional mexicana
  
Rasga - Antônio Nóbrega / Numa Ciro

Os Sertões -Trecho - Euclides da Cunha
  
Das Caatingas - Flaviola / Numa Ciro

Erva Cidreira - Cantiga popular do Alentejo, Portugal  

Invenção de Antônio - Nonato Gurgel  

Relógio da Saudade - Gereba / Antônio Conselheiro

Guarda Noturno - Mabel Velloso  

Épico - Caetano Veloso
  
Celeste Aída - Trecho da Ária da ópera Aída - Giuseppe Verdi  

Trecho da parte I de Ars Poética / Operação Limpeza - Waly Salomão, in Armarinho de miudezas  

Trecho de Você - Tim Maia

Irene - Rodrigo Amarante

Se você fosse igual a mim - Tânia Christal / Numa Ciro  

Uma Arte de Perder -Tradução de Paulo Henriques Britto para o poema The Art of Losing de Elizabeth Bishop

Roendo Unha - Luiz Gonzaga / Luiz Ramalho  

Abaporu - César Lacerda / Numa Ciro

Sodade - Armando Zeferino Soares

Saudades - Edição de vozes a dizer Saudade

Coimbra - Trecho - Raul Ferrão /  José Maria Galhardo

Trecho de Mar Portuguez - Fernando Pessoa, in Mensagem 

Saudades do Brasil em Portugal  Vinicius de Moraes

Dejame Llorar (Collar de Perla) - Alfonso Esparza Oteo

Bicho - Tânia Christal / Rui Matos

Coração Bateu - Jackson do Pandeiro / Ivo Martins

Rua da Saudade - Zé Miguel Wisnik / Numa Ciro

Quando tu passas por mim - Vinicius de Moraes

Saudade - Paulo Moska / Chico César

Esteja onde estiver o Tejo - Chico César

Uma frase poética de Roberto Roberti in Al Berto - Diários 

Senhor Extraterrestre - Carlos Paião  

Canción Mixteca - José López Alavez  

Longe - Arnaldo Antunes  

Alguém Cantando - Caetano Veloso  

Primeira parte do rap Sereia Louca - Capicua

Trecho de Saudosismo - Caetano Veloso



Ficha Técnica

Concepção, Roteiro e Direção: Numa Ciro
Apoio Cênico: Lígia Veiga
Assistência de Direção: Angela Carneiro
Iluminação: Orlando Schaider
Cenografia e figurino: Hildebrando de Castro
Direção musical: César Lacerda
Trabalhos de voz: Alba Lírio 
Gravação e Edição: Paulo Brandão – Estúdio Brand
Vozes em Saudades: César Lacerda, Elizah Rodrigues, Numa Ciro e Paulo Brandão
Design gráfico: Guilherme Marques
Fotografia: Daryan Dornelles
Costureira: Nice Silva
Camareira: Cedeli Martinusso
Arquitetura de produção: Miriam Juvino
Produtor executivo: César Lacerda
Assistente de produção: Ana Beatriz Oliveira
Realização: A Gente Se Fala Produções

Agradecimentos

Beá Meira, Beatriz Gouvêa, Elaine Lopes, Elizah Rodrigues, Flávio de Lira, Henrique Cairus, Hermano Vianna, José Machado Pais,  Maria Xavier, Nonato Gurgel, Paulo Brandão, Paulo Henriques Britto, Rossella Terranova, Sônia Alexandre, Sandro Karnas, Sebastião de Souza, Sílvia Ramos, Tânia Christal, Victoria Vasconcelos, Vitor Ferreira, Intituto Itau Cultural e toda a Equipe!



Dia 5 de Setembro, no Teatro da Trindade em Lisboa.