sexta-feira, 17 de abril de 2026

 

TOTEMICA

 

A via profana do pensamento

 

 

 

Totemica estava parada no meio de um pensamento absolutamente estarrecedor

Não fora uma ventania mnemônica sacudindo seus segredos ela não se daria um minuto de trégua

Trabalharia naquela orgia ideal até esgotar a última centelha dos ânimos

sonhos invertidos insensatos

leves aromas idiomáticos

arrebatadores lábios nos espelhos

nenúfares luminares

quadrúpede alazão

pégaso do sertão

asas da sonhação 

alarme

ainda    ela pensava

Totemica  ali parada no meio do redemoinho d’aquilo que circunscrevia ventania de pensamentos

Totemica sorria sozinha

para fora e para dentro    como se conversasse consigo

mesmo que fosse só o atrito do pensamento no pensamento

pensamento contra pensamento

pensamento sobre pensamento

pensamento querendo pensar menos pensamentos

voam pensamentos

aviões

andorinhas

gaviões

dumbos

gafanhotos

as alegres comadres de wind surf 

aparelhagens confusas das risadas domésticas

específicas descobertas

extremas nervuras das américas lineares

pisadas convalescentes do ódio!

quantas reticências...

quantas anedotas...

quantas esperanças ...

etc... terás... pensou

Totemica pensou pensou pensou

alguém

já se imaginou assim com tantos pensamentos?


A campainha toca.

Totemica vira outra

atravessa os pensamentos quase num esforço milagroso

um Moisés abrindo o mar

e não atraveeeeeeeesssssá-lo?

anda pela sala procurando a porta e o juízo

e pensando

será a vizinha que vem pedir emprestado um pouquinho de sal?

já são quase as horas certas para alguma coisa

e se for a amiga da empregada?

daquela

que só gostava de lavar a louça com sabão de coco

ela saía sempre às 16 horas

saia justa

blusas frouxas

tamancos altos pretos ou vermelhos

brincos de argolas

ciganas desvendadas

dadaísmos urbanos indecentes dadivosos duvidosos indefesos invisíveis palpáveis

A campainha insiste

Totemica toma um gole de susto e volta

procura a chave da porta

da outra

outra porta

e gira sem esquecer do momento que procurava este apartamento

como imaginava diferente disto que acabou querendo 

e pensando era este mesmo

já constava no mapa dos seus pensamentos

o endereço do esquecimento

Totemica abre finalmente a porta e se depara com um pensamento em pessoa não sabia definir se era um homem ou uma mulher

uma pessoa inédita e autoritária pela presença real e tão nítida

inacessível porte

amarás à próxima depois de ti

tão próxima de teu próximo e bem distante de ti mesma

e o que mais?

e o que quer esta pessoa em pensamentos palavras gestos

um mero objeto de contemplação?


A campainha toca mais uma vez

Totemica Totemica cadê a expressão

o gosto pelo outro lado do tempo

o outro tempo do mundo habitual das coisas cotidianas e reais

como um simples atendimento a uma porta

o simples dizer boa tarde

o que o senhor

ou a senhorita

ou a senhora

ou seja quem for

o que quer de mim?

o que veio fazer aqui?

o que é bater na porta o que significa abrir a porta o que é que eu quero dizer ao abrir a porta como o mundo começou por que eu estou aqui qual o peso da minha corporeidade na convicção de que existo sem querer dizer filosoficamente falando quer dizer não existo não penso não sou mas quando tenho fome eu sei uma coisa que só eu sei e sei que todo mundo sabe porque quando vou matar minha fome todo mundo quer matar a sua fome também e cada um se arma se ama senhalma ah aha ahaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh se tudo coubesse dentro e se o que ficasse de fora fosse o seu lugar seu lar seu apego ao tempo relento 


PENSO


em como tudo foi acontecendo

aos poucos

E tu?

Nem vias meus olhos náufragos querida

Não me olhes assim

Nem me ocorre como poderias

Perdi o controle  a bolsa  qualquer possibilidade

Perdi o ninho  o leite  a vergonha das faces

Corri desenhando riscos

Venceram forças ocultas

 

Tantas bobagens alicerçadas...

Sombrios os dias

Apaziguadas as horas

Em nenhum momento vinhas

 

Tantos mares desperdiçados e nenhum olhar à vista

 

O pensamento finalmente dorme e se espreguiça entre estáticos pontos de esquecimentos

No fundo opaco enganador teu vulto escandido e navo resplandecente como um grito no escuro uma carícia não identificada

Só o rastro

Bandido das coisas perdidas

Furtiva amada

menino astuto

vestal criança

olhar de espanto    complacências

Quadros se superpõem aos livros e estes aos discos

frases inteiras com a estética do latim


A campainha parou de tocar

 

Mas ela nem pode imaginar quando parou

se foi um deslocamento do tempo em relação a um certo suceder

ou melhor

em relação a um certo acontecimento sonoro que provocaria um outro acontecimento realizado por quem escutasse este som

neste caso

a campainha que tocava

 

isto sugeria que alguém falava para uma determinada pessoa uma porção de coisas como

abra a porta          abra a porta por favor            quero falar com você                  

se não for você a pessoa com quem eu quero falar eu termino por querer que você me atenda e me informe onde posso encontrar a pessoa com quem quero falar 

mas

eu já estarei falando com você 

a pessoa que ouviu a campainha e que é obrigada a responder a este sinal que exige do escutante uma resposta que é exatamente uma prova de adaptação a um dos códigos de comunicação para que possa haver um mínimo de interseção entre um elemento e outro do conjunto daqueles que falam para que

me dá até preguiça pensar no que teria que pensar sobre a tarefa exaustiva dos falantes de ter que decifrar a cada momento os códigos da convivência

os sinais da existência

os abusos da sobrevivência

e isto pode significar a loucura!

pois

é daí também que se escava a matéria prima do sentido até a significação mortal e ao mesmo tempo toda a possibilidade de vida que em si mesma não significa nada    que quer dizer     significa nada  não significa nem sequer nada

 

LÓVEME  LÁVEME  LÚVREME  LÉVEME 

daqui   

umas flores

Quaisquerrrrrrrrrrrrr  bombons

Naturalmente sofro e não de onde o nascente querer

naturalmente como  como

tenho pensado nisto constantemente

e não encontro vestígios de tão árdua execução do intelecto    pois considero as carícias verdadeiras pérolas da disposição humana para a inquietação

Quem nos viu naquele instante de inquietante sofrimento... Quem adivinharia o incômodo?

Talvez se apontasse o diafragma querendo pontuar o buraco

Mas não

Somos uma criança perdida com o endereço no bolso

Então!!!

Vejo crescerem os motivos de arrependimento

sempre que penso nos atos desperdiçados          

nas enganosas indicações

de que mesmo?                                      

de quando em quando                

e basta

Pare de rir de rir de rir de rir

Pare de mim de mim de mim

Paro de viver

Paro de morrer

“Para o mundo que eu quero descer”

Já li e ouvi esta frase em algum lugar

Para o mundo que eu quero subir

Diria eu

Se eu encontrasse o ponto de parada do mundo

Mas o mundo não é um ônibus

É um navio

Eu não sei nadar


Fui criada dos riscos atravessando as ilusões mais sutis pensava que entendia a vida como aquela árvore que cresce sem falar

Olho

Pela janela a noite continua a mesma

Não a noite

Eu

Continuo a mesma

Não ouso tocar nesta serenidade

Ignoro esse barulho

Ah! O que é que não foi?

Isto importa

Mesmo assim continua sendo irrelevante

Ah!

É tão carinhoso ser apanhada de surpresa pela vida

(...) de repente

Riscos de felicidade

E eu me pergunto

?????????????????????????????????????????????????????????????

E não me respondo

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Ontem

Fiquei horas a perguntar de uma extremidade

Há outra

Procurei exaustivamente por uma síntese

Um sossego

Uma centra----------------------------------------------------------L

-------------------------------idade

Porém

Uma obstinação pelos cantos

Pelas linhas divisórias arrepiantes dos desenhos que fazem silhuetas em noites mal iluminadas despertam muito mais curiosidades

 

     ante pé     diante de mim

As vezes me assustam

Às vezes me cariciam                                                                                              

Algumas vezes penso que sou como a maioria das gentes

Que traduzo com a máxima fidedignidade o sofrimento alheio somente para esquecer a enorme decepção de ter apenas uma dor singular

Tantas vezes sem eco                  sem solidariedade

Uma dor abafada que se omite     que se evita

Com a qual nada se faz a não ser deixar

 

Quantas vezes ficarei assim?

Conto os minutos como se o tempo que preciso pudesse caber em qualquer relógio


Faz um século

Faz um segundo

Faz qualquer coisa pra ficar assim

Faz muito frio aqui

 

foram as últimas frases que ouvi de seus lábios

 

Faz muito tempo

Ainda não pensava em suicídio

Nem gostava de chicletes

Parece que foi ontem

 

foram as únicas frases com as quais usei meu pensamento enquanto seus lábios pronunciavam as últimas frases

ainda lembro aquele olhar

além                          fixo

aquém                       imóvel

não me sai da cabeça aquela imagem

meus olhos nem mais descansam

mal distinguem longe-perto    mal durmo

as lágrimas escorrem 4 a quatro

estações emocionais exercendo expressividades

visões de espaços interiores onde pululam incessantemente as mais variadas formas de vidas inventadas

Vertigens

parâmetros passionais

e ninguém

ninguém mesmo inventou coisa alguma depois que se inventou a roda

só o mundo dando as sua voltas

 

amada     bem que anoiteceu

estávamos precisando deste sereno lá na pista

quando as luzes se acendem compondo a paisagem dos edifícios 

quem pensaria nos amantes?

quem pensaria nas crianças que iriam dormir?  

os pais   a mães    chegariam do trabalho?

 

não penso na família

penso no que ouvi de um passageiro

no ônibus 136 RODOVIÁRIA / COPACABANA:

Só acredito no que sinto quando dói

meu sono não cabe na minha cama

meu tempo não cabe no relógio

daí...

espalho-me

sonho

acordo no meio da noite

 

ONDE - FICA - O - MEIO - DA - NOITE?

                        vire-se

quero ver sua boca articulando cada sílaba desse diálogo imaginário como se eu fosse uma simples beata sentado no banco de uma capela e você no púlpito

 

eu sou nós       entende?

eu sou voz       entende?

 

o por do sol cai nas minhas convicções

quando a noite chega eu começo a pensar nos medos de tudo

de como a noite nos engole com sua boca enorme de raiva e desejos

 

- EreeeeeeeeeeeeeeeeeeJe!

 

a noite dá uma risada triste tão grande

por que?

por que penso tanto?

 

até de madrugada aquela voz é o mesmo disco sem fim       minha cabeça gira tudo     esse olhar fixo por um fio atravessa paredes um bicho feroz  atravessa na direção desse olhar

Rompem vesúveis sinais visíveis  intensamente iráveis noites intactas em claro   não posso esconder isso  desejo de mim   fecho gavetas apago impressões negócios conselhos de esquecer dou gargalhadas ao vento  

tento

na direção desse olhar tem um bicho feroz

acordei  e era belo aquele gosto estranho na boca enquanto o sol batia despudoramente nas vidraças            

espreguiçava               olhava

as festas     das frestas    

sorria    sorria  arrebatadores risos sacudindo os ombros  tudo era apenas formas de passar à margem do óbvio

olhei de lado

completamente cinza o traço

flores    arcos   dobras   cacos   revistas

havia um prazer convulso por ter acordado 

sempre me surpreende estar

olho ao longe             sem olhar

até desenrolar todos os sentidos

até onde podem ir os pensamentos?

as tardes caem?  as noites descem?

                                        Olho à perto     acerto

EeeeeNnnnnooooOOOOOOOORrrrrMmmmmeeee a boca

abertas mãos à obra     ao alto

abro as pernas    

UM     TREM     PASSA     RÁPIDO

Puxo as cobertas que sono pesado meu deus se alguém fechasse as cortinas (...) esse gosto estranho na boca que música é essa?

-        Ô de dentro?

-        Ô de fora?

Há?

Há!

 HOJE   O   CORAÇÃO   FERE   A   RAZÃO

acordei com um belo de um gosto estranho na boca impaciente com tudo irrita-me sobretudo passar pasta na escova de dentes este frio que não passa basta! besta! estou uma pilha merde! ainda bem que encontrei este cigarro    que me resta senão abrir  janelas à arquitetura dos planetas à mixagem dos sons urbanos como se fossem carícias próximas dos pensamentos  razões silenciosas

auto-crítica-do-amor-puro          

sujai a lógica

ética exuberante

CAVALO CAVALO CAVALO 

artigos avulso vespertinas notas de cristal

 

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiidddddddodddddddddddddddddddddddddddddddddooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooosssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss

Idos    zuns   bis    uns    is    zabumbas                  e

olhos giram sugando estrelas solitárias

voltas em vãos

Sois como a noite!  gritou uma voz aqui dentro um ruído estranho aqui dentro do bolso do peito

Não    não temas    tens que tens que...  

perdida voz no peito

 

Aqui dentro habitas    somente aqui dentro                lá fora                        FALTAS

És toda minha aqui dentro     

lá fora                       SILENCIAS


passei esta noite tudo em claro         doía muito

a cada sonho em que passavas 

beijavas    beijavas    beijavas

Ninguém me disse      Vá embora  

Não chegou em casa   nenhuma notícia extra vagante 

Mas fiquei problemática           

o dia passou com uma cara de ausência 

você saiu pelos corredores e eu

eu me salvei na ilha dos pensamentos

bati em portas que seriam herméticas se já não estivessem tão forçadas

 

Suja!                Foi tudo quanto meu pensamento conseguiu articular para o lado de lá
sublinhando aquela criatura sem destino

 

Não   ela não tem culpa           mas está nula
Francamente sua tola    você se impressiona 
            com tudo que se movimenta lá fora  

 

e se?     e se?   e se...

 

para de pensar     para de pensar

há séculos comecei a criar este país de ilusões

lembro-me bem quando foram inauguradas as primeiras fábricas de carícias

ah! como você sorria ali sozinha naquela poltrona perto do rádio

você viajava sem memória         

só através das imagens instantâneas

eu percebia de longe            

não conseguia parar de olhar

ficava acompanhando a linearidade da sua postura  

o que?

a linearidade da sua postura

às vezes os dedos brincavam nos braços da poltrona

eu fixava tais inexpressíveis movimentos como se traçassem bailarinos no palco   

o que?                                                    

como se traçassem bailarinos no palco

por essas coisas pensei 

teríamos sido feitas uma para a outra

uma para a outra

somente eu conhecia a singularidade de tantas coisas sem importância

nem uma vez me impacientei com seu olhar de vidro

às vezes sorríamos

dávamos rascantes gargalhadas

nesses instantes nossa existência ganhava sentidos extras... ordinários ... basta?  

as horas passavam         não o tempo

quem haveria de entender a lógica das datas que regulam a chegada de cartas     contas    folhetos      convites etc.   etc.   etc.   

 

Perguntávamos ao mesmo tempo :   Você passa?

 

numa dessas ocasiões compreendi          

tínhamos feito um pacto mudo e cruel

ignorávamos a noção do tempo

ocupávamos o espaço da inexistência 

vivíamos tão quase imobilizadas que reparávamos nas menores mudanças

assim 

abandonamos as lembranças           

esquecemos inteiramente de como éramos 

na adolescência  na infância    antes de nascer          

era como se fôssemos sempre assim 

no exato momento em que vivíamos                

não sonhávamos com o futuro        

caímos numa inexorável existência presente

uma gargalhada esvaziou mais um espaço denso e fez os objetos caírem 
num desuso sem precedentes 
aquele estrondo se espalhou desde o ventre 
e levou todos os infernos em seu eco


Não se objetiva assim uma tão grande dor

Deixa-me seduzir

Fora com esta crença

 

TUDO               FORA                       EM                      VÃO

à duas

caminhávamos sem sair do lugar

isto se tornara apaixonante  

convivíamos satiricamente com esta desesperança

simplesmente não esperávamos          

um dia             

noites

longínqua  repetição anacrônica 

delicada seria

se não fosse tão pesada 

parecia que a dor do mundo se despojava aos nossos pés

e nós?

o futuro a deus pertence  adeus presente          
adeus pertence o presente  esquecera seus pertences no futuro momento em que se desesperara e sem encontrar solução nos 
breves instantes de perplexidade 
entregou-se ao adeus disse adeus 
à sua autoridade interna chorou durante toda a noite rezou para Santa Cecília e se viu cantando no coro da igreja    depois    não conseguiu lembrar-se de mais nada    compreendeu que estava só    
corria    corria   corria   corria   corria    corria 
tentava segurar uma borboleta que não parava em flor alguma mas dava a impressão de querer ser alcançada                  Ficou sem fôlego    parou 
em lugar desconhecido 
a sensação era a de ter chegado            depois                nada
quando deu por si procurou sentir novamente aquela onda quebrando na rotina  
lembrou dos sapatos amarelos e dos momentos na frente do espelho

 Sempre tentei evitar esse assunto   

                           É tão fascinante este silêncio

É só ouvir          Mais nada

razões silenciosas caem como gotas de mel     

                                  mas o coração duvida

procura-se no fundo do poço apenas o fundo do posso o fundo do posso não tem fundos eis o balanço do vazio infra-mundo

Quem me dera ceder a essas carícias enigmáticas...

                                  Fingirei que não quero mais
                             Recusarei todas as conveniências
             Imigrações de insetos na mira do horizonte 
                          Z com A maiúsculo

apenas uma fórmula qualquer para puxar pensamentos tardios e
meticulosos
há somente uma única esperança 
guardada aqui na boca 
tudo vai depender apenas da voracidade da fala la está ali e eu não posso olham e riem de mim as naturezas mais estranhas  
sim  
o que fui não importa por isso mesmo continua a ser irrelevante 
Suporte      suposições   não não quero amenidades
Saem pelos meus olhos todos os objetos que por ali passaram mesas de pernas pro ar cadeiras postas de lado lençóis molhados algodão sujo de mercúrio cabides  cromos soutiens a Baía de Guanabara 
há de todos os santos bacias hidroelétricas  bactérias   fungos   estafilococus
e o que mais?
o muuuuuuunnnnnnnnnnnndo! 
você se basta 
eu sou você + tu + nós e o produto somos todos os beijos quem sabe? os deuses me recebem e eu provo do néctar       hem?  estalo a língua estranha aos seres igualzinha quando acordo em certas manhãs e quero morrer

depois              nem sei

Imagino morrer só para ver as pessoas que amo sofrerem  mas só um pouquinho

queria vê-las reunidas à minha volta com o último dos respeitos

ou das temeridades

estariam enfim diante do meu total silêncio

seus olhares sem retorno às avessas como um tiro pela culatra                  nunca tinha pensado antes que eu guardasse tanto ódio assim

quase gozo quando imagino que não seria o meu silêncio que as incomodaria mas o silêncio delas em mim fiquei horas assim feito uma parede sem ressonâncias um objeto inerte de olhar atônito infinitamente  pra-dentro   pró-fundo   pré-abismo  pras-coisas-desconhecidas-de-tudo 

Esse tipo de expressividade às vezes me assusta     pensou alto

 Você sempre fala o que lhe chega dos miolos sem consideração alguma

Já lhe falei das auroras de outrora 
que não passe pela contramão 
do meu entendimento

pensou baixo 
depois

continuou  imaginando a morte
coitada    tão boba esse ódio parece mais uma disfarçada idiotia...
Fernando mandou dizer por Álvaro que depois da surpresa depois do horror depois do velar 
depois do lamento e da trágica retirada para a cova vem logo depois
"o princípio da morte da tua memória"
aparecendo a princípio em forma de um alívio

Assim

as conversas cotidianas embrulhadas na rotina teceriam o meu esquecimento 
no pensamento deles
eu viraria uma página virada na vida de todos 
aí é que seria engraçado se eu de repente me levantasse despertando daquela catalepsia desabonadora e irretocável...
as pessoas ficariam tão decepcionadas...

como interromper um trabalho de luto?

elas já teriam passado pelo pior ou pelo melhor e eu já teria vagado pelas rotas imaginárias à deriva  extraviadas voltas à beira do abismo presente em todos os lugares e ao mesmo tempo num oceano de realidades impossíveis de se ignorar    

e a razão?   podia tudo      podia nada

e eu?           sabia tudo      sabia nada

expulso ideias de perfeição elevo as fantasias ao nível da curiosidade sem retorno sem satisfação  como se ignorasse o lugar

como chegar?

para que este enrondilhamento?

Eu só quero gozar em paz

Não quero um lugar na frase

 

8

Já se passaram 11 horas          

E aquele telefonema?

 

Ultrapasso dias velozes

Quando observo os séculos pelo ponteiro do relógio os segundos parecem cruéis

Um dia só pensei na morte  

Aquele era um dia interminável

Olhando as flores percebi que as pétalas exibem horizontes perfumados

Longínquo o horizonte dos beijos lá no fim da rua

quando chego cansada a pé sem fôlego lívida de calor

a te querer tanto quanto a um banho

Assim           

atingi os indícios mais simples deste caleidoscópio fantasmático e espectral dos meus órgãos

Muitas vezes perco os contornos e não crio novas emoções

Fico

Inerte e procuro silenciosamente o fio de tantas lutas interiores esquecidas

e por causa disto      

do esquecimento    

meu corpo se fixa na frente do telefone como se quisesse ver o toque

Imagino então aqueles dedos

Escrevem?    Abrem torneiras?    Tateiam zíperes? Tamborilam? Apontam? Tocam campainhas teclas itens?     Deslizam? 

Será que aqueles dedos murmuram?

 

9

Antes     eu me imaginava toda natureza

Mas depois daquela conversa fui ficando muito próxima de tudo

Cada vez mais solitária nesta aproximação

e no entanto mais ávida 

faminta   preguiçosa  cheia de palavras      

arrodeada de letrinhas

Olhando acontecimentos numa atitude de complacência   

de coragem

E nunca e nunca e  nunca  satisfeita ou conformada

 

São 11 e meia

Mesmo dia?

E aquele telefonema?

Eu me exponho às expectativas

Nunca sei se devo esperar ou me deixar surpreender

Porém            como esquecer tal promessa?

Ouvir aquela voz de um lugar qualquer

Apenas aquele som      

vindo de um lugar de seu corpo

que reconheço em fartas sensações às vezes quentes 

às vezes estranhas

em certos lugares do meu corpo 

preciso disto 

não sei se é vício 

coisas 

paixões desordenadas

Porque me disse que telefonaria às 11 em ponto      pronto!

Eu espero desde    desde    desde

Porque falou que levaria todos os sentimentos às alturas da razão

Por tantas vezes fingir que sabia as origens de todos os males

e os motivos de todos os bens

Por tudo quanto fez brilhar os olhos    calar os lábios   fustigar os sonhos

Oh!   Não

Finjo que tenho esperanças

 

Para onde depois eu vou?

Que apreciação essa de tomá-la nos braços

personagem dos meus diálogos interiores?

Ainda bem ainda mal?

Tudo gira sem um querer reconhecível e controlável

Elipse  falso         oculto            anormal  

sem encontrar um antípoda qualquer nalgum ponto esquecido inencontornável

 

Não é fácil chegar a nenhum lugar

Urge    Urra    Arre

 

A RAZÃO FERE O CORAÇÃO?

 

Hem?????????

 

Nem sempre   nãos   serão   Nãos

Fugir      Fugir     Fugir

 

Cair no abismo louco de cair

Cair   Cair   Cair

 

Até onde não houver mais questões

Essa marca

Essa dor que não passa

 

VACA!

 

Herança de uma fera          o que restou das mordidas

de tudo quanto deixaram as partidas    os abandonos

O dia claro desalmado enquanto a alma esperançosa e lânguida

como só as almas podem   

esperar  é próprio das almas

As folhas brancas   

as de papel   sim   as de papel

Limpas    prontas    Alvas

Com as pernas abertas pra qualquer RABISCO que aparecer

Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

 

Beijo qualquer imagem dos meus deuses íntimos

Íntimos como amigos      íntimos

Íntimos

 

Eis uma xícara em seu pires no seu plano mira

Olhar que pesca amenidades

E antes eu tinha pensado que não queria amenidades

Mas não resisti ao pires com a xícara no seu colo

A xícara que jamais voaria

Não porque fosse uma xícara

mas porque só lhe deram uma asa

 

OH! manhãs

Vejo os objetos brotarem como flores    frutos   

Ou como qualquer coisa criada pela natureza

 

Nunca visitei uma fábrica

A cultura é um milagre

Meus santos são os operários   os cientistas    os arquitetos

Também serão demônios

 

E a mágoa?     o tédio?   a preguiça?

Desconhecimentos...

Confio em tudo enquanto não digo nada

Desconto    sofro e não sofro

Pago para ouvir

Conheço as lágrimas sem chorar

Voltarei

Não do verbo voltar mas do verbo  woltzar

Força minha filha

Deixo você e digo   - Até breve       Vou sem querer

 

IR  IR  IR

 

RIR    RIR   RIR

 

No avesso do prazer sem fim onde a pele fere 

Onde os sentidos   pelo espírito carnal do tempo  pede

Mas só ganha flores de acrílico

 

Quem nasceu assim tão nítido?

 

Não há loucura maior    só as carícias

A paixão cabe nas palmas das mãos
A paixão incarna

Perfume abstrato internamente se alastra

OPUs  OPUs  OPUs

Atrás da orelha tem um segredo

Eu te disse!

Dormias...

Mas ouviste

 

 

10

Penso NOVAMENTE em como tudo foi acontecendo aos poucos     e tu?

Nem vias meus olhos náufragos    querida

Fico louca quando me olhas assim

Sinto em mim o quanto poderias me dar prazer

Perdi a educação que me deram

perdi o cartão de embarque

Perdi o fio   o medo e a coragem   e minha vergonha se perdeu pelas faces

Corri tantos riscos...

Venceram as forças estranhas

Tantas bobagens alicerçadas

Sombrios os dias   apaziguadoras sombras

Em nenhum momento vinhas

Tanto desejos jogados ali pelo chão pisados ou varridos

tão velhos quanto os chinelos

 

O pensamento finalmente dorme

e se espreguiça entre estáticos pontos de esquecimentos

No fundo opaco enganador

Teu vulto escandido e resplandescente

como um grito no escuro uma carícia não identificada

Só o rastro

Acreditei em tudo que me fez cair depois arrependida

Chute nas ilusões

Quantas coisas desconcertantes 

inutilmente trágicas

 

Louça posta    mesa sacra

E a rua deserta

 

11

Ela está tão próxima  

eu poderia fazê-la cair em mim com um mais ousado suspiro

com qualquer movimento

a não ser este que me expõe ao desejo inteiramente solitária e muda

 

Não há como abraçá-la

a impossibilidade do gesto é incomensuravelmente forte

mais forte que as vontades

Apenas por serem essas vontades tão fortes

 

Odeio tudo que nos impede o beijo

Odeio isto que excede o toque e me deixa assim inversamente tola

Odeio eu

Odeio todos os meus pensamentos

Eu queria ser filha do vazio

Eu queria fazer calar esse pensamento de repente

Secreto jogo de fixar morto o momento ao se perder em sorrisos ambíguos Esmagadores gestos

Enganadores reflexos

Inteiramente árdua  impossibilidade assim tão nua

Quisera tanto essa quimera

Encontrá-la ali entre os nossos seios

E a paixão

Que nos entregaria às inevitáveis risadas sem fôlego

Quisera vê-la ao me ver

Quisera vê-la a olhar-me

Sonhadora!

Estarei sempre te imaginando assim

Ao sorrir maliciosamente

Quem me dera tê-la   escrevê-la  impetuosamente frágil

De quem é a culpa?

Cala-me num beijo!

A vida acontece onde o sol é teu olhar queimando a minha vida

Desmancha meus pensamentos com teu perfume

Quando apareces   tudo se resume à nossa volta

 

A CAMPAINHA TOCA

 

Ou será o telefone que toca?

 

Ou de casa !  

Ou de dentro!

 

SOU  DE  FORA 

DEIXA-ME  ENTRAR