sexta-feira, 17 de abril de 2026

 

TOTEMICA

 

A via profana do pensamento

 

 

 

Totemica estava parada no meio de um pensamento absolutamente estarrecedor

Não fora uma ventania mnemônica sacudindo seus segredos ela não se daria um minuto de trégua

Trabalharia naquela orgia ideal até esgotar a última centelha dos ânimos

sonhos invertidos insensatos

leves aromas idiomáticos

arrebatadores lábios nos espelhos

nenúfares luminares

quadrúpede alazão

pégaso do sertão

asas da sonhação 

alarme

ainda    ela pensava

Totemica  ali parada no meio do redemoinho d’aquilo que circunscrevia ventanias de pensamentos

Totemica sorria sozinha

para fora e para dentro    como se conversasse consigo mesmo que fosse só o atrito do pensamento no pensamento pensamento contra pensamento pensamento sobre pensamento pensamento querendo pensar menos pensamentos voam pensamentos

aviões

andorinhas

gaviões

dumbos

gafanhotos

as alegres comadres de wind surf 

aparelhagens confusas das risadas domésticas

específicas descobertas

extremas nervuras das américas lineares

pisadas convalescentes do ódio!

quantas reticências...

quantas anedotas...

quantas esperanças ...

etc... terás... pensou

Totemica pensou pensou pensou

alguém

já se imaginou assim com tantos pensamentos?


A campainha toca. 

Totemica vira outra atravessa os pensamentos quase num esforço milagroso um Moisés abrindo o mar e não atraveeeeeeeesssssá-lo? anda pela sala procurando a porta e o juízo e pensando

será a vizinha que vem pedir emprestado um pouquinho de sal? já são quase as horas certas para alguma coisa e se for a vizinha da vizinha? aquela que só gostava de lavar os cabelos com sabão de coco ela saía sempre às 16 horas saia justa blusas frouxas tamancos altos pretos ou vermelhos brincos de argolas ciganas desvendadas dadaísmos urbanos indecentes dadivosos duvidosos indefesos invisíveis palpáveis

A campainha insiste

Totemica toma um gole de susto e volta

procura a chave da porta da outra outra porta e gira sem esquecer do momento que procurava este apartamento como imaginava diferente disto que acabou querendo e pensando era este mesmo já constava no mapa dos seus pensamentos o endereço do esquecimento

Totemica abre finalmente a porta e se depara com um pensamento em pessoa não sabia definir se era um homem ou uma mulher

uma pessoa inédita e autoritária pela presença real e tão nítida inacessível porte amarás à próxima depois de ti tão próxima de teu próximo e bem distante de ti mesma e o que mais? e o que quer esta pessoa em pensamentos palavras gestos um mero objeto de contemplação? 

A campainha toca mais uma vez 

Totemica Totemica cadê a expressão o gosto pelo outro lado do tempo o outro tempo do mundo habitual das coisas cotidianas e reais como um simples atendimento a uma porta o simples dizer boa tarde o que você  seja quem for o que quer de mim? o que veio fazer aqui? o que é bater na porta o que significa abrir a porta o que é que eu quero dizer ao abrir a porta como o mundo começou por que eu estou aqui qual o peso da minha corporeidade na convicção de que existo sem querer dizer filosoficamente falando quer dizer não existo não penso não sou mas quando tenho fome eu sei uma coisa que só eu sei e sei que todo mundo sabe porque quando vou matar minha fome todo mundo quer matar a sua fome também e cada um se arma se ama senhalma ah aha ahaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh se tudo coubesse dentro e se o que ficasse de fora fosse o seu lugar seu lar seu apego ao tempo relento 

PENSO

em como tudo foi acontecendo aos poucos e tu? nem vias meus olhos náufragos querida não me olhes assim nem me ocorre como poderias perdi o controle  a bolsa  qualquer possibilidade perdi o ninho  o leite  a vergonha  as cores das faces  corri desenhando riscos  venceram forças ocultas tantas bobagens alicerçadas... sombrios os dias  apaziguadas as horas em nenhum momento vinhas tantos mares desperdiçados e nenhum olhar à vista o pensamento finalmente dorme e se espreguiça entre estáticos pontos de esquecimentos

no fundo opaco enganador teu vulto escandido e navo resplandecente como um grito no escuro uma carícia não identificada só o rastro  bandido das coisas perdidas furtiva amada menino astuto vestal criança olhar de espanto    complacências quadros se superpõem aos livros e estes aos discos  frases inteiras com a estética do latim

A campainha parou de tocar

 Mas ela nem pode imaginar quando parou

se foi um deslocamento do tempo em relação a um certo suceder ou melhor em relação a um certo acontecimento sonoro que provocaria um outro acontecimento realizado por quem escutasse este som neste caso a campainha que tocava isto sugeria que alguém falava para uma determinada pessoa uma porção de coisas como

abra a porta          abra a porta por favor            quero falar com você e se não for você a pessoa com quem eu quero falar eu termino por querer que você me atenda e me informe onde posso encontrar a pessoa com quem quero falar mas

eu já estarei falando com você a pessoa que ouviu a campainha e que é obrigada a responder a este sinal que exige do escutante uma resposta que é exatamente uma prova de adaptação a um dos códigos de comunicação para que possa haver um mínimo de interseção entre um elemento e outro do conjunto daqueles que falam para que me dá até preguiça pensar no que teria que pensar sobre a tarefa exaustiva dos falantes de ter que decifrar a cada momento os códigos da convivência  os sinais da existência  os abusos da sobrevivência  e isto pode significar a loucura!

o que é a loucura?

é daí também que se escava a matéria prima do sentido até a significação mortal e ao mesmo tempo toda a possibilidade de vida que em si mesma não significa nada    que quer dizer     significa nada nada  não significa nem sequer nada

 LÓVEME  LÁVEME  LÚVREME  LÉVEME 

daqui   umas flores quaisquerrrrrrrrrrrrr  bombons naturalmente sofro e não de onde o nascente querer naturalmente como  como  tenho pensado nisto constantemente e não encontro vestígios de tão árdua execução do intelecto    pois considero as carícias verdadeiras pérolas da disposição humana para a inquietação quem nos viu naquele instante de inquietante sofrimento... quem adivinharia o incômodo? talvez se apontasse o diafragma querendo pontuar o buraco  mas não  somos uma criança perdida com o endereço no bolso

então!!!

vejo crescerem os motivos de arrependimento sempre que penso nos atos desperdiçados nas enganosas indicações de que mesmo?  de quando em quando  e basta pare de rir de rir de rir de rir pare de mim de mim de mim

paro de viver     paro de morrer

“Para o mundo que eu quero descer” já li e ouvi esta frase em algum lugar para o mundo que eu quero subir diria eu se eu encontrasse o ponto de parada do mundo  mas o mundo não é um ônibus é um navio e eu não sei nadar fui criada dos riscos atravessando as ilusões mais sutis pensava que entendia a vida como aquela árvore que cresce sem falar  olho pela janela a noite continua a mesma não a noite eu continuo a mesma não ouso tocar nesta serenidade ignoro esse barulho ah! O que é que não foi? isto importa  mesmo assim continua sendo irrelevante  ah! é tão carinhoso ser apanhada de surpresa pela vida

(...) de repente  riscos de felicidade e eu me pergunto

??????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????

e não me respondo

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

ontem fiquei horas a perguntar de uma extremidade há outra  procurei exaustivamente por uma síntese um sossego uma centra----------------------------------------------------------L------------------------------idade      porém uma obstinação pelos cantos pelas linhas divisórias arrepiantes dos desenhos que fazem silhuetas em noites mal iluminadas despertam muito mais curiosidades         ante pé diante de mim    às vezes me assusto       às vezes me cariciam     algumas vezes penso que sou como a maioria das gentes que traduzo com a máxima fidedignidade o sofrimento alheio somente para esquecer a enorme decepção de ter apenas uma dor singular tantas vezes sem eco    sem solidariedade  uma dor abafada que se omite  que se evita com a qual nada se faz a não ser deixar  

quantas vezes ficarei assim?

conto os minutos como se o tempo que preciso pudesse caber em qualquer relógio

Faz um século

Faz um segundo

Faz qualquer coisa pra ficar assim

Faz muito frio aqui

foram as últimas frases que ouvi de seus lábios 

faz muito tempo ainda não pensava em suicídio nem gostava de chicletes parece que foi ontem foram as únicas frases com as quais usei meu pensamento enquanto seus lábios pronunciavam as últimas frases ainda lembro aquele olhar

além                          fixo

aquém                       imóvel

não me sai da cabeça aquela imagem    meus olhos nem mais descansam mal distinguem longe-perto    mal durmo

as lágrimas escorrem 4 a quatro

estações emocionais exercendo expressividades visões de espaços interiores onde pululam incessantemente as mais variadas formas de vidas inventadas vertigens parâmetros passionais e ninguém ninguém mesmo inventou coisa alguma depois que se inventou a roda   só o mundo dando as sua voltas  

amada     bem que anoiteceu estávamos precisando deste sereno lá na pista quando as luzes se acendem compondo a paisagem dos edifícios quem pensaria nos amantes? quem pensaria nas crianças que iriam dormir?  os pais   a mães    chegariam do trabalho? não penso na família penso no que ouvi de um passageiro no ônibus 
136 RODOVIÁRIA / COPACABANA: 
Só acredito no que sinto quando dói

meu sono não cabe na minha cama meu tempo não cabe no relógio daí... espalho-me sonho acordo no meio da noite  

ONDE - FICA - O - MEIO - DA - NOITE?

                        vire-se

quero ver sua boca articulando cada sílaba desse diálogo imaginário como se eu fosse uma simples beata sentado no banco de uma capela e você no púlpito            eu sou nós  entende?   escuto a voz  entende?  o por do sol cai nas minhas convicções quando a noite chega eu começo a pensar nos medos de tudo de como a noite nos engole com sua boca enorme de raiva e desejos

 - EreeeeeeeeeeeeeeeeeeJe!

 a noite dá uma risada triste tão grande por que? por que penso tanto? até de madrugada aquela voz é o mesmo disco sem fim       minha cabeça gira tudo    esse olhar fixo por um fio atravessa paredes um bicho feroz atravessa na direção desse olhar rompem vesúveis sinais visíveis  intensamente iráveis noites intactas em claro   não posso esconder isso  desejo de mim   fecho gavetas      apago impressões  negócios  conselhos de esquecer        dou gargalhadas ao vento                      tento

na direção desse olhar tem um bicho feroz acordei  e era belo aquele gosto estranho na boca enquanto o sol batia despudoramente nas vidraças  espreguiçava  olhava as festas das frestas sorria    sorria  arrebatadores risos sacudindo os ombros  tudo era apenas formas de passar à margem do óbvio olhei de lado completamente cinza o traço flores   arcos   dobras   cacos   revistas havia um prazer convulso por ter acordado sempre me surpreende estar olho ao longe   sem olhar    até desenrolar todos os sentidos                          até onde podem ir os pensamentos? as tardes caem?
as noites descem?  olho à perto     acerto
EeeeeNnnnnooooOOOOOOOORrrrrMmmmmeeee a boca abertas mãos à obra    ao alto abro as pernas

UM   TREM   PASSA     RÁPIDO

Puxo as cobertas que sono pesado meu deus se alguém fechasse as cortinas (...) esse gosto estranho na boca que música é essa?

  Ô de dentro?

   Ô de fora?

Han?

Há!

 HOJE   O   CORAÇÃO   FERE   A   RAZÃO

acordei com um belo de um gosto estranho na boca impaciente com tudo       irrita-me sobretudo passar pasta na escova de dentes     este frio que não passa basta! besta!        estou uma pilha merde! ainda bem que encontrei este cigarro que me resta senão   abrir janelas à arquitetura dos planetas à mixagem dos sons urbanos como se fossem carícias próximas dos pensamentos  razões silenciosas                                                                  auto-crítica-do-amor-puro          sujai a lógica ética exuberante

CAVALO CAVALO CAVALO 

artigos avulso vespertinas notas de cristal

zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiidddddddodddddddddddddddddddddddddddddddddooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooosssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss

Idos    zuns   bis    uns    is    zabumbas     e  olhos giram sugando estrelas solitárias voltas em vãos Sois como a noite!  gritou uma voz aqui dentro um ruído estranho aqui dentro do bolso do peito

Não    não temas    tens que tens que...  

perdida voz no peito 

Aqui dentro habitas    somente aqui dentro                lá fora                        FALTAS

És toda minha aqui dentro     

lá fora                       SILENCIAS

passei esta noite tudo em claro doía muito    a cada sonho em que passavas   beijavas  beijavas beijavas ninguém me disse  Vá embora  não chegou em casa nenhuma notícia extra vagante mas fiquei problemática o dia passou com uma cara de ausência você saiu pelos corredores e eu     eu me salvei na ilha dos pensamentos bati em portas que seriam herméticas se já não estivessem tão forçadas  Suja! foi tudo quanto meu pensamento conseguiu articular para o lado de lá sublinhando aquela criatura sem destino  

Não   ela não tem culpa           mas está nula
Francamente sua tola    você se impressiona 
            com tudo que se movimenta lá fora  

 e se?   e se?   e se...  para de pensar para de pensar há séculos comecei a criar este país de ilusões lembro-me bem quando foram inauguradas as primeiras fábricas de carícias ah! como você sorria ali sozinha naquela poltrona perto do rádio você viajava sem memória    só através das imagens instantâneas eu percebia de longe não conseguia parar de olhar ficava acompanhando a linearidade da sua postura  o que? a linearidade da sua postura às vezes os dedos brincavam nos braços da poltrona eu fixava tais inexpressíveis  movimentos como se traçassem bailarinos no palco  o que?  como se traçassem bailarinos no palco por essas coisas pensei teríamos sido feitas uma para a outra

uma para a outra

somente eu conhecia a singularidade de tantas coisas sem importância

nem uma vez me impacientei com seu olhar de vidro

às vezes sorríamos

dávamos rascantes gargalhadas

nesses instantes nossa existência ganhava sentidos extras... ordinários ... basta?  

as horas passavam         não o tempo

quem haveria de entender a lógica das datas que regulam a chegada de cartas     contas    folhetos      convites etc.   etc.   etc.   

 

Perguntávamos ao mesmo tempo :   Você passa?

 

numa dessas ocasiões compreendi          

tínhamos feito um pacto mudo e cruel

ignorávamos a noção do tempo

ocupávamos o espaço da inexistência 

vivíamos tão quase imobilizadas que reparávamos nas menores mudanças

assim 

abandonamos as lembranças           

esquecemos inteiramente de como éramos 

na adolescência  na infância    antes de nascer          

era como se fôssemos sempre assim 

no exato momento em que vivíamos                

não sonhávamos com o futuro        

caímos numa inexorável existência presente

uma gargalhada esvaziou mais um espaço denso e fez os objetos caírem 
num desuso sem precedentes 
aquele estrondo se espalhou desde o ventre 
e levou todos os infernos em seu eco


Não se objetiva assim uma tão grande dor

Deixa-me seduzir

Fora com esta crença

 

TUDO               FORA                       EM                      VÃO

à duas

caminhávamos sem sair do lugar

isto se tornara apaixonante  

convivíamos satiricamente com esta desesperança

simplesmente não esperávamos          

um dia             

noites

longínqua  repetição anacrônica 

delicada seria

se não fosse tão pesada 

parecia que a dor do mundo se despojava aos nossos pés

e nós?

o futuro a deus pertence  adeus presente          
adeus pertence o presente  esquecera seus pertences no futuro momento em que se desesperara e sem encontrar solução nos 
breves instantes de perplexidade 
entregou-se ao adeus disse adeus 
à sua autoridade interna chorou durante toda a noite rezou para Santa Cecília e se viu cantando no coro da igreja    depois    não conseguiu lembrar-se de mais nada    compreendeu que estava só    
corria    corria   corria   corria   corria    corria 
tentava segurar uma borboleta que não parava em flor alguma mas dava a impressão de querer ser alcançada                  Ficou sem fôlego    parou 
em lugar desconhecido 
a sensação era a de ter chegado            depois                nada
quando deu por si procurou sentir novamente aquela onda quebrando na rotina  
lembrou dos sapatos amarelos e dos momentos na frente do espelho

 Sempre tentei evitar esse assunto   

                           É tão fascinante este silêncio

É só ouvir          Mais nada

razões silenciosas caem como gotas de mel     

                                  mas o coração duvida

procura-se no fundo do poço apenas o fundo do posso o fundo do posso não tem fundos eis o balanço do vazio infra-mundo

Quem me dera ceder a essas carícias enigmáticas...

                                  Fingirei que não quero mais
                             Recusarei todas as conveniências
             Imigrações de insetos na mira do horizonte 
                          Z com A maiúsculo

apenas uma fórmula qualquer para puxar pensamentos tardios e
meticulosos
há somente uma única esperança 
guardada aqui na boca 
tudo vai depender apenas da voracidade da fala 
ela está ali e eu não posso 
olham e riem de mim as naturezas mais estranhas  
sim   o que fui não importa           por isso mesmo continua a ser irrelevante 
Suporte      suposições   não não quero amenidades
Saem pelos meus olhos todos os objetos que por ali passaram mesas de pernas pro ar      cadeiras postas de lado              lençóis molhados        algodão sujo de mercúrio     cabides    cromos                soutiens 
a baía de guanabara               há de todos os santos bacias hidroelétricas         bactérias             fungos   estafilococus                    e o que mais?
o muuuuuuunnnnnnnnnnnndo! 
você se basta 
eu sou você + tu + nós e o produto somos todos os beijos quem sabe?        os deuses me recebem e eu provo do néctar       hem?  estalo a língua estranha aos seres igualzinha quando acordo em certas manhãs e quero morrer

depois              nem sei

Imagino morrer só para ver as pessoas que amo sofrerem                          mas só um pouquinho

queria vê-las reunidas à minha volta com o último dos respeitos                             ou das temeridades

estariam enfim diante do meu total silêncio

seus olhares sem retorno às avessas como um tiro pela culatra                  nunca tinha pensado antes que eu guardasse tanto ódio assim

quase emudeço quando imagino que não seria o meu silêncio que as incomodaria mas o silêncio delas em mim fiquei horas assim feito uma parede sem ressonâncias um objeto inerte de olhar atônito infinitamente  pra-dentro   pró-fundo   pré-abismo  pras-coisas-desconhecidas-de-tudo 

Esse tipo de expressividade às vezes me assusta     pensou alto

 Você sempre fala o que lhe chega dos miolos sem consideração alguma

Já lhe falei das auroras de outrora 
que não passe pela contramão  
                                            do meu entendimento

pensou baixo 

depois 
continuou  imaginando a morte
coitada    tão boba esse ódio parece mais uma disfarçada idiotia...
Fernando mandou dizer por Álvaro que 
depois da surpresa depois do horror depois do velar 
depois do lamento e da trágica retirada para a cova vem logo depois
"o princípio da morte da tua memória"
aparecendo a princípio em forma de um alívio

Assim

as conversas cotidianas embrulhadas na rotina teceriam o meu esquecimento 
no pensamento deles
eu viraria uma página virada na vida de todos 
aí é que seria engraçado se eu de repente me levantasse despertando daquela catalepsia desabonadora e irretocável...
as pessoas ficariam tão decepcionadas...

como interromper um trabalho de luto?

elas já teriam passado pelo pior ou pelo melhor e eu já teria vagado pelas rotas imaginárias à deriva  extraviadas voltas à beira do abismo presente em todos os lugares e ao mesmo tempo num oceano de realidades impossíveis de se ignorar    

e a razão?   podia tudo      podia nada

e eu?           sabia tudo      sabia nada

expulso ideias de perfeição elevo as fantasias ao nível da curiosidade sem retorno sem satisfação  como se ignorasse o lugar

como chegar?

para que este enrodilhamento?

Eu só quero gozar em paz

Não quero um lugar na frase


Já se passaram 11 horas          

E aquele telefonema?

 

ultrapasso dias velozes

quando observo os séculos pelo ponteiro do relógio os segundos parecem cruéis

um dia só pensei na morte  

Aquele era um dia interminável olhando as flores percebi que as pétalas exibem horizontes perfumados  longínquo o horizonte dos beijos lá no fim da rua quando chego cansada a pé sem fôlego lívida de calor a te querer tanto quanto a um banho assim  atingi os indícios mais simples deste caleidoscópio fantasmático e espectral dos meus órgãos muitas vezes perco os contornos e não crio novas emoções

Fico

inerte e procuro silenciosamente o fio de tantas lutas interiores esquecidas e por causa disto  do esquecimento  meu corpo se fixa na frente do telefone como se quisesse ver o toque imagino então aqueles dedos

escrevem?   abrem torneiras?    tateiam zíperes? tamborilam? apontam? tocam campainhas teclas itens? Deslizam? Será que aqueles dedos murmuram?

 antes     eu me imaginava toda natureza mas depois daquela conversa fui ficando muito próxima de tudo cada vez mais solitária nesta aproximação e no entanto mais ávida               faminta   preguiçosa  cheia de palavras               arrodeada de letrinhas olhando acontecimentos numa atitude de complacência de coragem e nunca e nunca e  nunca  satisfeita ou conformada  
são 11 e meia  mesmo dia? e aquele telefonema? eu me exponho às expectativas nunca sei se devo esperar ou me deixar surpreender         porém            como esquecer tal promessa? ouvir aquela voz de um lugar qualquer                   apenas aquele som                                  vindo de um lugar de seu corpo
que reconheço em fartas sensações 
às vezes quentes  às vezes estranhas      em certos lugares do meu corpo preciso disto não sei se é vício coisas paixões desordenadas
porque me disse que telefonaria às 11 em ponto      pronto! eu espero desde    desde    desde desde porque falou que levaria todos os sentimentos às alturas da razão por tantas vezes fingir que sabia as origens de todos os males e os motivos de todos os bens  por tudo quanto fez brilhar os olhos    calar os lábios   fustigar os sonhos  Oh!   não!           finjo que tenho esperanças   

Para onde depois eu vou?

Que apreciação essa de tomá-la nos braços

personagem dos meus diálogos interiores?

Ainda bem ainda mal?

Tudo gira sem um querer reconhecível e controlável

Elipse  falso         oculto            anormal  

sem encontrar um antípoda qualquer nalgum ponto esquecido inincontornável

Não é fácil chegar a nenhum lugar

Urge    Urra    Arre

 

A RAZÃO FERE O CORAÇÃO?
                         Hem?????????

 

nem sempre   nãos   serão   não
fugir      fugir     fugir
cair no abismo louco de cair
cair   cair   cair
até onde não houver mais questões
essa marca   essa dor que não passa

VACA! 

herança de uma fera o que restou das mordidas 
tudo quanto deixaram  as partidas   os abandonos
o dia claro desalmado enquanto a alma esperançosa e lânguida  como só as almas podem 
esperar  é próprio das almas 
as folhas brancas   as de papel   sim   as de papel
Limpas    prontas    Alvas
com as pernas abertas pra qualquer RABISCO que aparecer aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
beijo qualquer imagem dos meus deuses íntimos íntimos como amigos      íntimos   íntimos 
eis uma xícara em seu pires no seu plano mira
olhar que pesca amenidades e antes eu tinha pensado que não queria amenidades as não resisti ao pires com a xícara no seu colo 
a xícara que jamais voaria 
não porque fosse uma xícara
mas porque só lhe deram uma asa

OH! manhãs

Vejo os objetos brotarem como flores    frutos   ou como qualquer coisa criada pela natureza  nunca visitei uma fábrica  a cultura é um milagre  meus santos são os arquitetos   os operários   os cientistas    os demônios fazem birra                      e a mágoa?  o tédio?   a preguiça?               desconhecimentos...
Confio em tudo enquanto não digo nada  desconto    sofro e não sofro pago para ouvir conheço as lágrimas sem chorar
voltarei não do verbo voltar mas do verbo  woltzar

Força minha filha Deixo você e digo   
 Até breve       Vou sem querer

 

IR  IR  IR

RIR    RIR   RIR

 No avesso do prazer sem fim onde a pele fere  os sentidos   pelo espírito carnal do tempo  pede mas só ganha flores de acrílico 
                                quem nasceu assim tão nítido?

não há loucura maior    só as carícias a paixão cabe nas palmas das mãos a paixão incarna perfume abstrato internamente se alastra

OPUs  OPUs  OPUs

atrás da orelha tem um segredo eu te disse! dormias...   mas ouviste     penso NOVAMENTE em como tudo foi acontecendo aos poucos     e tu?nem vias meus olhos náufragos    querida fico louca quando me olhas assim sinto em mim o quanto poderias me dar prazer perdi a educação que me deram perdi o cartão de embarque perdi o fio   o medo e a coragem   e minha vergonha se perdeu pelas faces corri tantos riscos... venceram as forças estranhas tantas bobagens alicerçadas sombrios os dias   apaziguadoras sombras  em nenhum momento vinhas tanto desejos jogados ali pelo chão pisados ou varridos tão velhos quanto os chinelos o pensamento finalmente dorme e se espreguiça entre estáticos pontos de esquecimentos no fundo opaco enganador teu vulto escandido e resplandecente como um grito no escuro uma carícia não identificada só o rastro acreditei em tudo que me fez cair depois arrependida chute nas ilusões quantas coisas desconcertantes inutilmente trágicas louça posta    mesa sacra  e a rua deserta ela está tão próxima  eu poderia fazê-la cair em mim com um mais ousado suspiro com qualquer movimento a não ser este que me expõe ao desejo inteiramente solitária e muda não há como abraçá-la a impossibilidade do gesto é incomensuravelmente forte mais forte que as vontades apenas por serem essas vontades tão fortes odeio tudo que nos impede o beijo odeio isto que excede o toque e me deixa assim inversamente tola odeio eu odeio todos os meus pensamentos eu queria ser filha do vazio eu queria fazer calar esse pensamento de repente   secreto jogo de fixar morto o momento ao se perder em sorrisos ambíguos esmagadores gestos enganadores reflexos inteiramente árdua  impossibilidade assim tão nua quisera tanto essa quimera encontrá-la ali entre os nossos seios             e a paixão  que nos entregaria às inevitáveis risadas sem fôlego quisera vê-la ao me ver quisera vê-la a olhar-me          sonhadora!    estarei sempre te imaginando assim ao sorrir maliciosamente quem me dera tê-la   escrevê-la  impetuosamente frágil de quem é a culpa? cala-me num beijo! a vida acontece onde o sol é teu olhar queimando a minha vida desmancha meus pensamentos com teu perfume quando apareces   tudo se resume à nossa volta  

A CAMPAINHA TOCA

                       ou será o telefone que toca?

 

OU DE CASA!

OU DE DENTRO!

                                          SOU  DE  FORA!

DEIXA-ME  ENTRAR!