domingo, 23 de agosto de 2026

BRÁULIO TAVARES E NUMA CIRO

 

O cordel do fogo encantado de Bráulio Tavares

https://simaopessoa.wordpress.com/2006/11/24/o-cordel-do-fogo-encantado-de-braulio-tavares/


Um e-méio para Bráulio

Pelos seus 70 ano  

e os 40 anos que canto 

O Hipopótamo Tartamudo - Uma Balada Comportamental


 

A espinha dorsal do meu corpo de memórias cedeu aos impulsos das vértebras cabralinas provocando a abertura das articulações poético sonoras que fizeram expandir as fronteiras transferenciais dos ciber-humanos. Um farol acendeu lembranças que me arrastaram pelos olhos e orelhas, aos pés do instante em que reconheci meu ser para a Arte. Voltei, Recife! E me vi sentada no auditório onde aconteciam as conferências políticas e espetáculos artísticos promovidos pelo Diretório Central do Estudantes.

 

Escrevi DCE? Sim. Primeiros sinais da abertura que rachava a ditadura. Os Diretórios Acadêmicos estavam sendo reanimados, pois tinham sido fechados logo no início da ditadura. Eu era estudante de Psicologia na Faculdade de Filosofia do Recife e fui eleita por voto direto para presidente do Diretório Acadêmico desta Faculdade.  

No entanto, para a eleição do DCE (Diretório Central dos Estudantes), os votos permitidos eram indiretos, ou seja, apenas dois componentes da chapa vitoriosa de cada diretório acadêmico podiam votar. Apesar desta imposição, a chapa da esquerda ganhou a eleição para presidir o DCE - Recife. Aí recomeçaram os movimentos estudantis pelo direito de todos à educação, pelas condições de ensino, pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita,  primeiro movimento nacional unificado contra a ditadura.

Naquela tarde, naquele auditório, segurei nos peitos, com as fibras do coração, o impacto indescritível de ver e ouvir, naquele palco, você, Bráulio Tavares. Bardo? Anjo Futurista? Menestrel das Galáxias? Rapsodo das Musas indecifráveis? Quem se apresentava assim?

 

Meu nome é Trupizupi

Sou o Galo de Campina

Meu nome é Trupizupi

O Raio da Silibrina

 

No ritmo do sotaque do cariri, ligeiro como um raio e desenrolado como o bote da caninana... com o timbre luminoso dos aboios e a altivez das seriemas na beira do açude... com a perigosa maciez da onça pintada e aquele olhar de uma criança encantada... Quem dizia esses versos? 

Comecei aprendendo com Drummond.

Traduzi os poemas de Ezra Pound, 

As canções de Bob Dylan, o underground, 

A escrita automática de Breton. 

Maiakóvski foi quem me deu o tom; 

João Cabral me ensinou o ponteado;

Com Rimbaud aprendi ser afinado

Pra cantar o oceano com Neruda; 

Treme o sol, treme a terra, o vento muda

Quando eu canto martelo agalopado.

 

Tantos anos depois, parece que foi ontem. Parece que vai acontecer amanhã. Está acontecendo agora. Você, Bráulio, nos faz pensar ao longo da transversalidade dos tempos narrativos, poéticos, humanos, políticos, filosóficos. Então ouso dizer a todo mundo: Pense! “O futuro substitui o passado como um matagal ocupa um vilarejo” about:blank#blocked. Sente! na Praça do Meio do Mundo e escute a Balada do Andarilho Ramon; aprenda a fazer Anotações para um Adeus e responder com um Soberano Desprezo a uma desilusão amorosa; difícil não entrar na luta antirracista depois de conhecer O Caso dos Dez Negrinhos; lave a sua alma nordestina com uma vingança ficcional e Imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente; misture suas emoções aos ingredientes do Caldeirão dos Mitos para depois descobrir no Poema da buceta cabeluda o púbis do universo.

Sai do meio que lá vem o filósofo. Viemos, de ônibus, eu, professora do Departamento de Educação e uma turma de alunos da UFPB – Campus II, Campina Grande - era assim naquela época - assistir a 32ª Reunião Anual da SBPC de 6 a 12 de julho de 1980, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ. O tema foi Ciência e Educação para uma Sociedade Democrática. Ficamos hospedados na Casa do Estudante Universitário da UFRJ – Na Av. Rui Barbosa, de frente para a Baía da Guanabara, hoje Colégio de Altos Estudos. Te Lembras de quem estava neste ônibus e ficou hospedado nesta Casa? Tu, Bráulio Tavares. Imagine se faltou cantoria e alegria nessa viagem... E os shows que aconteceram naquela Casa? A nota triste foi marcada pela notícia da morte de Vinícius de Moraes no dia 9 de Julho. Nunca esqueci deste momento, lágrimas a escorrer enquanto olhava a Baía e o Pão de Açúcar.

Em 1981, com a direção de Hermano José, diretor do Teatro Municipal de Campina Grande, fiz minha estreia como atriz, contracenando com Ranulfo Cardoso Jr. A peça? Quinze Anos Depois, de Bráulio Tavares. Ficamos em cartaz durante 3 anos, pelos palcos do Brasil, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Ganhamos prêmios e consideração.

Mas só nos anos 90, já morando aqui, no Rio de Janeiro, desmanchei a pose de estátua diante do Gênio e comecei a escrever. Primeiro poema: adivinhe! Um Martelo Agalopado: Meu Nome é Numa Ciro, em resposta ao seu martelo Meu nome é Trupizupi. No começo eu vim assim:

 

Pra cantar desafio estou contigo

Oh poeta que sigo e admiro

Estatura não tenho mais prefiro

Ser o anjo que afasta o inimigo

A morada do amor é meu abrigo

O desejo da rima é combinar

O sentido do mote está no ar

Quem pegar na palavra diz o seu

Quem pensar que eu não canto escute o meu

É com ele que vou me apresentar

 

Em 2018, foi lançado o LENDÁRIO LIVRO, feito de nossos poemas, 5 autores nordestinos: Aderaldo Luciano, Bráulio Tavares, o inesquecível recém finado Raimundo Nonato, Toinho de Castro, Otto Ferreira e – A Convidada - esta nordestinada que vos escreve. Aí, a minha homenagem agalopada deixa a sua marca de admiração.

 

Só se fala atualmente em internete,

Endereço eletrônico  navegar.

Comunica quem aprende a sitiar:

Uma bomba que não mata mas impede

A conversa cara a cara sem confete.

Pois eu acho esse caso muito sério.

Manuscrito já perdeu o seu império,

Sobre isso escrevi sem nostalgia

E pra não ter o atraso de um dia,

Eu mandei-o para Bráulio por e-méio.

 

Aí  me apresentei para você saber quem eu era ou queria ser. Eu pedia, não para desafiar, mas  para ser seu par no repente... decorado... e o refrão apresentador:

 

Meu nome é Numa Ciro

Sou a relva da Campina

Meu nome é Numa Ciro

A providência divina

 

Em outubro 2020, com 70, (gosto de dizer: nascemos em Campina Grande, no mesmo ano) lançarei meu primeiro disco produzido pela percussionista Lan Lanh, que você deu a honra de sua presença na primeira audição do álbum, naquela noite inesquecível na Companhia de Mystérios e Novidades, na Gamboa. A única música que não tem letra minha, é a sua, Bráulio: Hipótese do Hipopótamo Tartamudo – Uma balada comportamental, com arranjo e piano de Cadu Pereira e fagote e contra fagote de Cosme Silveira. Esta música está fazendo quarenta anos que foi composta e eu vivo dentro dela com meu canto há pelo menos uns 35 anos initerruptamente. Considero que é uma das composições mais geniais de todo o cancioneiro do planeta em todas as épocas.

A escritora americana Toni Morrison, na ocasião em que recebeu o prêmio Nobel de Literatura, disse, em seu discurso, que uma língua para ser viva tem que ser reinventada constantemente. Não existe quem o faça melhor do que os escritores, poetas e cantadores. Considero você um exímio tradutor, não só das centenas de obras de língua inglesa, mas de nossa própria língua nordestinada. Há um universo significante ali que a gente fala e nem percebe como fala e o que diz.  É só o tempo de ouvir a sua voz, Bráulio: a cantar, pensar alto, escrever... Quem a escuta, não escapa: quem não era, vira, na hora, um falante apaixonado por essa língua. 

 

Você escreveu:

Eu quero inventar uma coisa, uma coisa viva, uma coisa

que se desprenda de mim e se mova pelo resto do mundo

com pernas que ela terá de crescer de si própria;   

e que seja ela uma máquina viva, uma máquina

capaz de decidir e de duvidar, capaz de se enganar e de mentir. Uma coisa que não existe. Uma coisa pela primeira vez.

 

Você inventou, Bráulio. A sua obra e você.

 

 

 




 

MEU NOME É TRUPIZUPI 


Bráulio Tavares

 

 

Meu nome é Trupizupi

Sou o galo de Campina

O meu nome é Trupizupi

O raio da Silibrina

 

Pra cantar desafio eu tou sozinho

pois não vejo poeta a minha altura;

eu não acho ninguém com estatura

pra poder me seguir neste caminho.

Quando de uma plateia eu me avizinho,

surge alguém pra me desafiar;

quanto mais eu me ajoelho pra rezar

mais as almas penadas me aparecem

- se esse povo daqui não me conhece,

se segure que eu vou me apresentar.

 

Sou o bote da cobra caninana

sou dentada de tigre enraivecido

sou granada que solta um estampido

que se escuta por mais de uma semana;

sou ferrão de abelha italiana

sou a bala que acerta o meio da testa

sou incêndio que arrasa uma floresta

sou a bruta explosão da dinamite

sou micróbio feroz da meningite

liquidando com gente que não presta.

 

Sou virada de trem no meio da serra

redemunho que arrasta o nadador

sou doença que chamam de estopor

sou canhão da segunda Grande Guerra

navalhada feroz do peixe-serra

barbatão quando parte enfurecido

pontapé quando acerta o pé-do-ouvido

tremedeira de crise de malária

gargarejo de água sanitária

e colírio de chumbo derretido.

 


 

Sou mosquito que traz febre amarela

sou espinha de peixe na garganta

sou o peso da roda da jamanta

quando desce a ladeira na banguela

sou furada de ponta de sovela

sou aranha emboscada em sua teia

rabanada de cauda de baleia

telegrama trazendo má notícia

sou carona no carro da polícia

e hospedagem gratuita na cadeia.

 

Eu sou a ponta de prego no sapato

das que pegam no meio do calcanhar

sou vampiro que morde a jugular

sou a cobra feroz que engole um rato

barruada de aviões a jato

sou espinho que rasga um guarda peito

sou uma briga de foice em beco estreito

sou o urro do touro que é ferrado

nevralgia de dente cariado

das que entroncha o pescoço do sujeito

 

Sou a seca que mata no Nordeste

sou buldogue feroz que o dono atiça

sou lagoa de areia movediça

pistoleiro cruel do faroeste

sou pais assolado pela peste

sou as fera da arca de Noé

sou tacape pesado do pajé

sou a mola escondida da arapuca

vidro em pó misturado no açúcar

soda-cáustica em xícara de café.


 

Eu sou praga de velha macumbeira

carabina que atira de emboscada

assobio de flecha envenenada

e bofete aplicado com soqueira

sou as dez polegadas da peixeira

sou o gume afiado do facão

frigideira na boca do fogão

pra fritar gente ruim dentro do óleo

sou incêndio num poço de petróleo

arrasando o orçamento da nação.

 

Sou tortura que vem da antiga China

cacetada no meio do pau da venta

sou vingança de negra ciumenta

dose dupla de fel e estricnina

cabeçada no fundo da piscina

dentadura fatal do tubarão

sou gangrena depois da infecção

sou a presa de um bicho peçonhento

sou a bomba no colo do sargento

explodindo o infeliz do capitão

 

E eu não sei por que é que hoje em dia

só se fala na tal de bomba atômica

pois eu acho essa história meio cômica

e não vejo razão pra essa folia.

Sobre mim caiu uma, certo dia,

na segunda das guerras mundiais;

destruiu dezessete capitais

e o planeta ficou se sacudindo

e eu depois da explosão fiquei sentindo

um pouquinho de enxaqueca e nada mais.

 

Comecei aprendendo com Drummond

traduzi os paideumas de Ezra Pound

as canções de Bob Dylan, o underground

e a escrita automática em Breton;

Maiakóvski foi quem me deu o tom

João Cabral me ensinou o ponteado

com Rimbaud aprendi ser afinado

pra cantar o oceano com Neruda

treme o sol, treme a terra e o vento muda

quando eu canto martelo agalopado.





Pois não tinha serventia metáfora

pura ou quase o povo é o melhor

artífice no seu martelo galopado

no crivo do impossível no vivo do

inviável no crisol do incrível do

seu martelo galopado 

Galáxias – Haroldo de Campos


MEU NOME É NUMA CIRO


Este Martelo Agalopado responde ao desafio 

do Martelo Agalopado 


Meu nome é Trupizupe 

                                    de Bráulio Tavares





Pra cantar desafio estou contigo

Oh poeta que sigo e admiro

Estatura não tenho mais prefiro

Ser o anjo que afasta o inimigo

A morada do amor é meu abrigo

O desejo da rima é combinar

O sentido do mote está no ar

Quem pegar na palavra diz o seu

Quem pensar que eu não canto escute o meu

É com ele que vou me apresentar

 

Refrão

 

Meu nome é Numa Ciro

Sou a relva da Campina

Meu nome é Numa Ciro

A providência divina

 

Meu nome é Numa Ciro

Sou a relva da Campina

Meu nome é Numa Ciro

A providência divina

 

 

Sou o voo do desejo no horizonte

Sou o riso da criança desejada

Sou Lisboa, em Pessoa, visitada

A verdade beijou a minha fronte

Sou La Dolce Vita de uma fonte

A taça nas mãos do vencedor

O peito que acolhe o perdedor

Sou a brisa da sorte na desdita

A crença daquele que acredita

No projeto de paz de um sonhador...


Sou

 

A voz que atravessa a escuridão

A voz da minha mãe sempre a cantar

As vozes das cantigas de ninar

A conversa que esquenta o coração

Sou boneca de pano de algodão

Imitou-me a Rainha de Sabá

Do sermão eu soletro o bê-á-bá

Pelos meus belos olhos um império

Conquistou os recintos do mistério

Sem meu canto esse mundo o que será

 

Sou o susto da paixão inesperada

Sou o beijo na Bela Adormecida

A valsa de Strauss em nossa vida

Quando o frevo revela a mascarada

Com a varinha de condão sou essa fada

Sou a mão que recebe o visitante

Sou a casa que acolhe o habitante

E a certeza do pão de cada dia

Eu não posso viver sem harmonia

Sou Chiquinha  sou Gonzaga  sou  Mutante

 

Madalena confessou o meu pecado

Fui ócio da primeira vagabunda

Dos meus sonhos a beleza é oriunda

A história nasceu do meu passado

Meu destino pelo verso foi traçado

Fui o sopro de Deus na criação

Sou o Bumba-meu-boi do Maranhão

No Cordel sou a rima das sextilhas

Sou Alice no País das Maravilhas

E as sete cataratas do sertão


Sou o chinelo velho pro cansaço

A pausa no mundo que tem pressa

O carrinho na escada de Odessa

E a silhueta do velho Encouraçado

Sou a água que chove no roçado

E o sol que desponta na Sibéria

Utopia que acaba com a miséria

Sou a noiva no altar do casamento

Sou a dor que caiu no esquecimento

E o remédio que mata bactéria 

 

Sou o dom de ler a mão de uma cigana

De Beethoven a nona sinfonia

Sou a noite que separa o dia-a-dia

E o domingo entre os dias da semana

Sou o fogo que alimenta a velha chama

A Natureza duradoura do amor

A violeta do olhar de Liz Taylor

Sou o fio que desmancha o labirinto

Eu só falo o que penso e o que sinto

Sou a boca carnuda de Bardot


Sou na Festa de Babette o apetite

Sou a bola na cesta do basquete

As coxas perfeitas da vedete

E a forma do belo em Afrodite

Sou a Nega Zefa a Deusa Lilith

O raio de Iansã da Conceição

Vaidade aberta em leque do pavão

Sou as águas de março em abril

As cores da Aquarela do Brasil

Sou a força dos cabelos de Sansão

 

Só se fala atualmente em internete

Endereço eletrônico  navegar

Comunica quem aprende a sitiar

Uma bomba que não mata mas impede

A conversa cara a cara sem confete

Pois eu acho esse caso muito sério

Manuscrito já perdeu o seu império

Sobre isso escrevi sem nostalgia

Pra não ter atraso de um dia

Eu mandei-o para Bráulio por e-méio

 

Aprendi com minha avó, desde menina

a fazer da cantoria vocação

assistindo  Retalhos do Sertão

na Rádio Borborema de Campina

Zé Limeira confirmou a minha sina

James Joyce com Homero foi casado

Guimarães Flor Lispector encantado

Eu não posso viver sem escritura

Se transforma em criador a criatura

quando eu canto martelo agalopado


Este Galope foi musicado pela compositora e cantora, também Paraibana, Socorro Lira. Compõe o repertório do meu disco 

NUMACiro, Produzido pela percussionista Lan Lanh.

 









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