sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A PELEJA DA VOZ COM A LÍNGUA - A SAUDADE

Quarta-Feira, 24 de Setembro, 2014, no Itau Cultural - São Paulo, foi a estreia do último monólogo que compõe o Tríptico.

ROTEIRO


Fotografia Daryan Dornelles


A Peleja da Voz com a Língua

A SAUDADE

Para Santuza Cambraia Naves
  

Epígrafe
Sem título - Paulo Henriques Britto

Abertura
Sabiá lá na gaiola - Hervé Cordovil / Mário Vieira

A volta - Numa Ciro

Assum Branco - Zé Miguel Wisnik

Palavraausência - Franco Terranova, in Palavraausência

Mulher Chorando - Flaviola / Numa Ciro

Sobre o Canto XI da Odisseia de Homero - Numa Ciro / Henrique Cairus - traduções de Carlos Alberto Nunes e Henrique Cairus  

Cantigas do Maio - José Afonso / Quadra popular portuguesa
Excelência - Flaviola / Numa Ciro
  
La Martiniana - Andrés Henestrosa / cantiga tradicional mexicana
  
Rasga - Antônio Nóbrega / Numa Ciro

Os Sertões -Trecho - Euclides da Cunha
  
Das Caatingas - Flaviola / Numa Ciro

Erva Cidreira - Cantiga popular do Alentejo, Portugal  

Invenção de Antônio - Nonato Gurgel  

Relógio da Saudade - Gereba / Antônio Conselheiro

Guarda Noturno - Mabel Velloso  

Épico - Caetano Veloso
  
Celeste Aída - Trecho da Ária da ópera Aída - Giuseppe Verdi  

Trecho da parte I de Ars Poética / Operação Limpeza - Waly Salomão, in Armarinho de miudezas  

Trecho de Você - Tim Maia

Irene - Rodrigo Amarante

Se você fosse igual a mim - Tânia Christal / Numa Ciro  

Uma Arte de Perder -Tradução de Paulo Henriques Britto para o poema The Art of Losing de Elizabeth Bishop

Roendo Unha - Luiz Gonzaga / Luiz Ramalho  

Abaporu - César Lacerda / Numa Ciro

Sodade - Armando Zeferino Soares

Saudades - Edição de vozes a dizer Saudade

Coimbra - Trecho - Raul Ferrão /  José Maria Galhardo

Trecho de Mar Portuguez - Fernando Pessoa, in Mensagem 

Saudades do Brasil em Portugal  Vinicius de Moraes

Dejame Llorar (Collar de Perla) - Alfonso Esparza Oteo

Bicho - Tânia Christal / Rui Matos

Coração Bateu - Jackson do Pandeiro / Ivo Martins

Rua da Saudade - Zé Miguel Wisnik / Numa Ciro

Quando tu passas por mim - Vinicius de Moraes

Saudade - Paulo Moska / Chico César

Esteja onde estiver o Tejo - Chico César

Uma frase poética de Roberto Roberti in Al Berto - Diários 

Senhor Extraterrestre - Carlos Paião  

Canción Mixteca - José López Alavez  

Longe - Arnaldo Antunes  

Alguém Cantando - Caetano Veloso  

Primeira parte do rap Sereia Louca - Capicua

Trecho de Saudosismo - Caetano Veloso



Ficha Técnica

Concepção, Roteiro e Direção: Numa Ciro
Apoio Cênico: Lígia Veiga
Assistência de Direção: Angela Carneiro
Iluminação: Orlando Schaider
Cenografia e figurino: Hildebrando de Castro
Direção musical: César Lacerda
Trabalhos de voz: Alba Lírio 
Gravação e Edição: Paulo Brandão – Estúdio Brand
Vozes em Saudades: César Lacerda, Elizah Rodrigues, Numa Ciro e Paulo Brandão
Design gráfico: Guilherme Marques
Fotografia: Daryan Dornelles
Costureira: Nice Silva
Camareira: Cedeli Martinusso
Arquitetura de produção: Miriam Juvino
Produtor executivo: César Lacerda
Assistente de produção: Ana Beatriz Oliveira
Realização: A Gente Se Fala Produções

Agradecimentos

Beá Meira, Beatriz Gouvêa, Elaine Lopes, Elizah Rodrigues, Flávio de Lira, Henrique Cairus, Hermano Vianna, José Machado Pais,  Maria Xavier, Nonato Gurgel, Paulo Brandão, Paulo Henriques Britto, Rossella Terranova, Sônia Alexandre, Sandro Karnas, Sebastião de Souza, Sílvia Ramos, Tânia Christal, Victoria Vasconcelos, Vitor Ferreira, Intituto Itau Cultural e toda a Equipe!



Dia 5 de Setembro, no Teatro da Trindade em Lisboa.



terça-feira, 17 de junho de 2014

OS SETE PECADOS CAPITAIS EM CANTORIA NORDESTINADA




 Coletivo Independente de Teatro
Uma releitura de Berthold Brecht em cena




A Gemedeira dos sete pecados
na capital dos pecadores sem pecado


 Por Numa Ciro

Música - do repente na modalidade da Gemedeira





I
A preguiça


Na floresta da preguiça
de Anouck Boisrobert e Louis Rigaud
Bruaá, 2012
a partir dos 3 anos



Eu gemia de preguiça
dia e noite, noite e dia.
Gemo ainda, em todo canto,
no quarto, na livraria.
Gemerei por toda vida!
ai ai    ui ui 
A preguiça é minha guia.


O gemido é mais gostoso
se eu mastigar devagar.
Com preguiça bebo água
e me arrastando, tento andar.
Gemerei na terra inteira!
ai ai    ui ui
a preguiça é o meu lugar


Gemo alto de preguiça,
gemendo me sobressalto.
Gemo baixo quando canso.
Diz mexer, escuto assalto!
Gemo de tudo e de nada
ai ai    ui ui 
a preguiça é meu asfalto.


Só adormeço gemendo,
acordar é pesadelo.
Fazer sexo é cansativo.
Sonhar, nem de brinquedo!
Gemo sem fim, sem parar
ai ai    ui ui,
a preguiça é meu levedo.


Estou com a fome canina.
Chamo gemendo mãinha.    
Responde a mãe, carinhosa:
- Traga seu prato, filhinha!
Não quero mais, já passou.
ai ai    ui ui,
me cansa ir até a cozinha.



II
A Gula


Uma Despensa
Adriaen van Utrecht, 1642


Eu mastigo sem parar.
Como sempre o tempo todo.
Meu apetite é voraz:
ganho do padre e do lobo.
Eu só penso em guloseima,
Ai ai ui ui,
a gula é meu farto consolo.

Já nasci chupando os dedos.
Mamei em mamãe e na ama;
nas visitas à vizinha
de resguardo em sua cama.
Mamei até nas cabrinhas!
ai ai, ui ui,
gulodice me deu fama.

Criança sedenta e faminta,
só brincava de casinha.
Era sempre a cozinheira
e até a boneca, tadinha!
vivia com sede e com fome,
Ai ai, ui ui ui,
me chamavam gulozinha.

Só compro em lojas que têm
utensilhos de cozinha:
Copo, prato, guardanapo,
comida pronta, quentinha,
bebida de todo tipo,
Ai, ai, ui, ui,
não quero outra vidinha.

Quando vou ao shopping center,
não vejo roupa nem jóia;
não compro nada pro quarto;
oh! doce de paranóia.
Eu salto sem pára-quedas,
Ai, ai ui, ui,
mas num nado sem a bóia.



III
A Ira


Vejam e ouçam bem alto 
Odeio Você
Caetano Veloso
https://www.youtube.com/watch?v=P_gQQHa2F94



Vivo da ira que eu tenho
de tudo que há nesse mundo.
Odeio mamãe e papai.
Dos Irmãos, ódio profundo.
A ira pulsa em cada nervo
ai ai    ui ui 
do meu coração vagabundo.


Irado meu choro ao nascer.
Não conheço compaixão.
A flor do ódio cultivo:
levo um cacho em cada mão.
De raiva pretendo morrer,
Ai ai    ui ui  
Flores do mal no caixão.


O ódio danado qu’eu tenho
cresceu com as ervas daninhas,
nascidas no abandono
de amores perdidos, filhinhas.
Os frutos maduros colhidos,
ai ai    ui ui
divido com as minhas vizinhas.

As sementes dessa ira
fecundo em latinhas de ódio.
Nas estufas do silêncio
cultivo-as como-se-fossem-d’ópio.
Odeio a bondade e a fé
ai ai    ui ui
eu fumo a ira no pódio.


Apago as estrelas da noite.
Quebro a varinha de condão.
A fada madrinha eu enforco,
Papai Noel pro lixão
com saco e tudo que há dentro
Ai ai    ui ui,
só guardo a raiva do cão.



IV
A Inveja

Hildebrando de Castro

  
Eu me mato de inveja,
de quem vive sem sofrer
e tem tudo e mais um pouco,
ganhando a vida ao nascer.
Herdei a inveja de tudo
Ai ai    ui ui,
que está fora do meu ter.


Invejo as pernas da misse
e a cintura de pilão
Quero os peitos de Tieta
ser a musa da canção
e ouvir, por onde passar,
ai ai     ui ui 
“Eu derrubo esse avião”. 


A inveja me consome,
quando não tenho o que eu quero.
Minha inveja tem os nomes
das coisas que mais venero.
Cobiço as coisas alheias
ai ai    ui ui,
Inveja é meu par no bolero.


Quando entrei naquele quarto
eu vi com a inveja dos mortos
mamãe mimando outro filho
no meu cantinho em seu colo
papai olhando os seus braços
ai ai    ui ui
furei meu pai bem nos olhos.


Saí de casa bem cedo
pra ter inveja bem longe.
Inveja das que cobiça
tudo e todos quando e onde
aparece o que desejo
Ai ai     ui ui
Pela inveja eu virei monge.



 V
A luxúria

luxuriachei na Internet 


Eu acordo e me apaixono
e passo o dia com vontade.
À tarde me pego querendo,
a noite inteira, é verdade!
Eu vivo nadando em prazer
ai ai, ui ui,
em luxuri-oh-cidade...


Em tudo que há nesse mundo,
que qualquer um diz: bom, bons,
existe um mal que eu não troco
nem vendo a imagem dos sons.
O bem e o mal no meu  bloco
ai ai    ui ui
gozam dos dons e nos tons.


Só de pensar me dá luxúria
nas pernas, no olhar e nas ideias
e o corpo brinca com a alma
de vadiar nas boleia
dos caminhão nas estrada
ai ai    ui ui
pra ter gozo de plebeia.


Como gozarão as santas?
E a onça em pleno cio?
Psiu, não geme tão alto,
te vira na lata, amor mio!
cachorra que gosta de funk
ai ai    ui ui
pega o trem no assobio.


Caço a noite atrás do dia,
o rabo é quente, é um açoite.
Quem trepa na cama dos outros
não teme lâmina, nem coice.
O cu dos outros não é o nosso,
Ai ai    ui ui,
luxúria nossa de cada noite...



VI
A Avareza




 Eu quero tudo pra mim.
Não abro a mão para dar.
Só bebo a seiva da vida,
nem a morte vai tomar.
Eu tranco a vida no cofre
Ai ai    ui ui
Avareza vai guardar.


Nem Moliére dormindo
no seu avaro colchão
sonharia com um personagem
sovina que nem meu vilão
que tem  medo de perder
Ai ai    ui ui
até a poeira do chão.


O meu nado sincronizado
no lago de ouro derretido
cunhou a moeda talismã
de tio Patinhas, no vestido.
Pra fantasia avara
Ai ai    ui ui
A riqueza é o tecido.


Mesquinho, mão fechada,
mão-de-vaca, pão-duro e avarento.
São nomes para quem pega
carona nas costas do vento
Ai ai    ui ui
E não dá nem um por cento


Uma avara que nem eu,
que tem vergonha de ser,
é uma vara envergada
nas avarenças do ter
ela só sente a avareza
ai ai    ui ui
quando ela teima em são ser.



VII
 A Soberba


Muralha da china

Doris Monteiro arrasando 
em Mocinho Bonito de Billy Blanco
https://www.youtube.com/watch?v=sk9EiVxngeI&feature=kp


Eu tenho orgulho de mim
e de tudo o que é meu.
Eu tenho mais é que ter
tudo que querem meus eus:
eles só pedem ao mundo
ai ai    ui ui
o mundo todo e até Deus.


Ninguém merece o prazer
que a vida a mim me oferece.
A minha vida se farta
na delícia que se esquece
de tudo e de todos, nem desce!
ai ai   ui ui
a vaidade me aquece 


O orgulho e a presunção
são  balinhas de festim,
se os comparo à arrogância,
projétil largado de mim.
A tirania é meu forte
ai ai    ui ui
Eu prendo e mato tudim. 


Eu sou melhor que você.
Ninguém consegue alcançar
o lugar onde eu cheguei,
de onde eu posso mandar.
Mando no reino e no rei
ai ai    ui ui
Mando o bispo te pegar.


A soberba é minha força
A vaidade me anima
No orgulho eu me sustento
A prepotência me estima
da tirania eu extraio
Ai ai    ui ui
As truculências da rima


sábado, 31 de maio de 2014

PARCERIAS COM FLAVIOLA



Trecho final de Ulisses, o Monólogo de Molly Bloom - 
James Joyce - Tradução de Antônio Houaiss
Musicado por Flaviola

Voz: Numa Ciro
Gravação especial para o programa do Poeta Eucanaã Ferraz
A VOZ HUMANA
na Rádio Batuta 
IMS - Instituto Moreira Sales


Vozes para James Joyce - quase Bloomsday

Link para assistir 

https://www.youtube.com/watch?v=TTy8jYAx8u0https://www.youtube.com/watch?v=TTy8jYAx8u0




(...) eu dei a ele um pouquinho do bolinho de cheiro da minha boca e era ano bissexto como agora  sim dezesseis anos atrás meu Deus depois desse beijo longo eu quase perdi minha respiração sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim assim a gente é uma flor todo o corpo de uma mulher sim essa foi uma coisa verdadeira que ele disse na vida dele e o sol brilha para você hoje isso foi porque eu gostei dele porque eu via que ele entendia ou sentia o que era uma mulher eu sabia que eu podia dar um jeito nele e eu dei a ele todo o prazer que eu podia levando ele até que ele me pediu pra dizer sim e eu não queria responder só olhando para o mar e o céu eu estava pensando em tantas coisas (...) eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração batia como louco sim eu disse sim eu quero Sims. 


Trieste-Zurique-Paris, 1914-1921




Lançamento do livro de Neide Arcanjo


Numa Ciro e Flaviola
Consulado Português - Rio de Janeiro
Concerto para Archanjo
Lançamento do livro As Marinhas, de Neide Archanjo
Poemas musicados por Flaviola






Flaviola e O Bando do Sol - Flaviola e O Bando do Sol
Rozenblit – 1974

Mais um daqueles momentos mágicos da música brasileira.
Flaviola e O Bando do Sol apresenta lampejos de pura genialidade e nos mostra, mais intimamente, a linda atmosfera da nossa arte, tão bem reproduzida na década de 70. Com esse trabalho, temos mais uma amostra do quão poderosa é a música nordestina e como seus ilustres artistas são imensamente talentosos e sensíveis.

Encontramos aqui um trabalho predominantemente acústico, com rica poesia e instrumentos mais líricos (flauta, violas, violões) que fazem toda a diferença na sonoridade folk psicodélico.

Frequentemente, Flaviola e O Bando do Sol é comparado aos também clássicos Paêbirú do Lula Côrtes e Zé Ramalho e No Sub Reino dos Metazoários do Marconi Notaro. Essa comparação faz sentido, a estética é a mesma e as três obras-primas foram produzidas quase no mesmo período, porém, é necessário um cuidado para não reduzir o brilho desse trabalho, que mostra sim uma originalidade, principalmente pela voz carismática de Flaviola, um dos grandes gênios que já surgiram no país.

Obviamente, muito dessa grandiosidade, tem referência direta com o time de músicos que foi escalado para tocar. Além de Flávio de Lira (Flaviola), podemos apreciar a arte dos incomparáveis Robertinho do Recife, Zé da Flauta, Paulo Raphael e do próprio Lula Côrtes, que realmente, estava num momento iluminado.

É terminantemente impossível escolher as melhores músicas do disco, já que todas são bem representativas e cada uma realça um estado de espírito, uma forma exclusiva de evidenciar a arte de viver. De qualquer forma, podemos selecionar algumas delas que são absurdamente lindas e inspiradas, que atingem a perfeição.

A instrumental “Canto Fúnebre” teve a missão de iniciar essa bela viagem musical e no final, acaba fazendo muito mais, nos emociona profundamente. Um tema divino!

As canções “O Tempo” e “Noite” são semelhantes, mesma poesia e levada folk e se completam entre si. Já “Desespero” tem tudo pra ser o principal tema, não só pela belíssima melodia, mas também por abordar um tema complexo: o lamento diante da solidão e o imenso vazio causado por ela. “Canção do Outono” vem reforçar essa ideia e o faz com maestria.

“Do Amigo”, coloca o sentimento de amizade verdadeira como algo inabalável, como a cura para a tristeza no mundo. Será que há como duvidarmos disso? Acredito que não!!

“Olhos” (clara influência na música do Lenine, Zeca Baleiro, entre outros), “Romance da Lua” (uma adaptação de um poema de García Lorca) e “Asas” (personificação da música nordestina, pós Tropicalismo) são as demais canções que contribuem, decisivamente, para a riqueza e também para o grande alcance da obra.

Flaviola e O Bando do Sol é de fato um trabalho atemporal, que pode ser ouvido em qualquer tempo em qualquer lugar e causam a mesma sensação de prazer absoluto. Não é a toa que é reconhecido mundialmente, como uma das grandes pérolas da música brasileira. Mais do que justo.
No mais, só temos que agradecer a esses grandes artistas, por terem concebido um álbum tão valioso e importante e torcer para que os ensinamentos proferidos por eles continuem atingido o coração dos amantes da boa música, também nas próximas gerações.

Por Fabiano Oliveira









Ouça o disco

https://www.youtube.com/watch?v=nkSIUfewixQ



01. Canto Fúnebre

02. O Tempo

03. Noite

04. Desespero

05. Canção do Outono

06. Do Amigo

07. Brilhante Estrela

08. Como os Bois

09. Palavras

10. Balalaica

11. Olhos

12. Romance da Lua

13. Asas




NOSSAS PARCERIAS


POEMAS DE NUMA CIRO
MÚSICAS DE FLAVIOLA

I

ESSAS PEDRAS ROLANDO DO PEITO


Para Marcelo - meu irmão 

Fez sua passagem aos 5 anos 

quando eu tinha 12 

     

                     Canto a dor pela sua perda                                



Mulher Chorando 
Candido Portinari 
1944




Se não fosse a vida escapulindo
Se não fosse a solidão inesperada
E se não bastasse o abismo
ainda tinha a superfície
a aurora despedaçada

Era quase uma flor se não fosse o gesto
Quase um rouxinol
mas não cantava
Só chorava

O choro tinha tudo pra lavar a alma
Se não fosse a pancada
Se tivesse pelo menos uma palavra
Nem não

Era quase um orvalho se não fosse o pesar
Quase diria
uma bolha de sabão
mas não flutuava

As lágrimas caíam como rolam pedras
e esse olhar que foge longe
Parecia que nem era por mim que chorava

Quero o nome disso que fere ali onde havia festa
Tinha o mundo e era bom
De lá se ouviam as risadas
O cheiro de jasmim passava
E aquele gostinho de bombom

Onde estava guardado esse risco?
Onde estava guardado esse risco?
Onde estava guardado esse risco?

Se não fosse aquele olhar longínquo
Essas pedras rolando do peito
E essa mão que chora mais forte

Era quase um semblante
se não fosse a morte 


II

OS QUATRO ELEMENTOS NA BEIRA DO MAR


                    Para 

Maria Bethânia

Hildebrando de Castro 



ÁGUA

Navego ba(r)cante nas águas do tempo
Carrancada na proa pantomimo feições
Os ventos marinhos me assopram Camões
Procuro tesouros nas dobras do vento
No abismo dos sonhos sereias invento
De vozes mais lindas que a luz do luar
Cem vezes me atiro    sem medos de amar
Mil vezes naufrago     mil redes me pescam
Cavalos-marinhos fogosos me cercam
Dançando galope na beira do mar

           

Hildebrando de Castro - Sem título - 2011



AR

Avoo rasante nas ondas do tempo
Ícaro às avessas no rumo cangaço
Dumont fez os Santos com asas de aço
Eu faço ciranda no giro do vento
O impulso do voo é um só movimento
Um segundo só basta pro amor se olhar
Se no ar desse olhar o desejo falar
Pelos poros e até pelos cinco sentidos
Eu salvo do fim os amores perdidos
Rezando galope na beira do mar





 Hildebrando de Castro / Sem título, 2010



FOGO

Dançando me jogo no fogo do tempo
Labaredas de fúria na paisagem Sertão
Nas brasas da língua o verso de João
Cabral nas veredas andando ao relento
A sede do cão na quentura do vento    
Espinho foi laser pro crivo bordar
Toalhas de linho     lençóis pra casar
Caatingas são dores que a seca esculpiu
Pelo fogo do amor feito cega me enfio
Dizendo galope na beira do mar
Hildebrando de Castro



TERRA

Caminho lavrada nas léguas do tempo
Arrancada do chão   Vitalino meu umbigo
Na soleira da aurora procuro um abrigo
O adeus vem do aço   do ferro e cimento
O leite das pedras produz meu sustento
Destino do bom é amor carregar
Se no alto da sorte o amor me beijar
Eu arranco do barro o formato do ninho
Eu misturo o sagrado ao profano carinho
Cantando galope na beira do mar



III


O Rap-Xote do Engraxate
ou
"ELE SÓ TEM EU POR MIM"










Gustavo e Leonardo
Os Irmãos Duarte 
Criadores da produtora PLUS ULTRA 

Escrevi este poema musicado por Flaviola para o Documentário O Engraxate, 2002, dos Irmãos cineastas,  premiado no Festival em Brasília.



ELE SÓ TEM EU POR MIM
ou 
O Rap-Xote do Engraxate





             
Sentado eu finjo que me deito
Adormeço no colo da calçada
Se o batente é minha cama disfarçada
Cruzo os braços e faço travesseiro
                              Imito o descanso verdadeiro 
Até sonho que engraxo o meu destino
Esfregando o meu sapato Aladino       
Visto asas de anjo e experimento
Um encontro com Carlitos sonolento
No seu sonho de anjo bailarino

                                              







Naquele filme era ele e o menino
O amor do mundo entre os dois
Ódio do mundo contra os dois
Como eu e meu irmão num só destino
Desmentindo redemunho luciferino
Vidas secas forjadas no capricho
De tratar um homem feito bicho
Carecendo de alma pra sofrer
Pois eu digo e engraxo meu dizer
Eu enfrento dor de homem feito bicho

Eu enfrento dor de homem feito bicho






Eu sou filho de um homem, não sou bicho.
Minha terra dá garganta aos seus cantores.
Minha mãe que é pastora de louvores,  
Veste saia bordada de carrapicho.
Minha mãe manda carta de seu nicho, diz:
– Meus filho, eu lhes dou minha benção!
  Eu respondo engraxando o coração:
Meu irmão está preso sem ser ruim
E se ele só tem eu pra ser por mim
Eu trabalho pra livrar o meu irmão

                            Eu trabalho pra livrar o meu irmão                                        

  














         













IV




Arte: Franciscanos / Web



SANTO AMOR    



Composição para o Musical  Francisco de Assis                  
                                                                  de Ciro Barcelos 
                                                Direção Musical de                                                                                                 Flaviola





Portinari
Detalhe do painel de azulejos, na parte externa da Igreja São Francisco de Assis, na Pampulha – BH.



 
De onde vem essa luz e me alcança
Onde fui apenas sombra dos meus passos?
Quem me chama nas vozes desses pássaros?

O silêncio me veste de esperança

Conduz meu sonho oh Santo Amor
O dia canta a oração do sol
A lua reza
A noite pronuncia

Quem me guia?
Quem me guia?

Onde estive não havia nem sinal de vida
Nem sabia do Amor Sagrado as alegrias

Oh Santo Amor!
Oh Santo Amor!
Oh Santo Amor!
Oh Santo Amor!

Acende a fogueira da promessa em meu peito
Onde a dúvida de tudo me atravessa
Conduz meu sonho oh Santo Amor
Oh Santo Amor
Oh Santo Amor



O Êxtase de São Francisco
Caravaggio         1595
Óleo sobre tela
Wadsworth Atheneum, Hartford, Connecticut