quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Composições de Numa Ciro

 I


MULHER CHORANDO




Mulher Chorando 
Candido Portinari 
1944




 Numa Ciro



Se não fosse a vida escapulindo
Se não fosse a solidão inesperada
E se não bastasse o abismo
ainda tinha a superfície
a aurora despedaçada

Era quase uma flor se não fosse o gesto
Quase um rouxinol
mas não cantava
Só chorava

O choro tinha tudo pra lavar a alma
Se não fosse a pancada
Se tivesse pelo menos uma palavra
Nem não

Era quase um orvalho se não fosse o peso
Quase diria
uma bolha de sabão
mas não flutuava

As lágrimas caíam como rolam pedras
e esse olhar que foge longe
Parecia que nem era por mim que chorava

Quero o nome disso que fere ali onde havia festa
Tinha o mundo e era bom
De lá se ouviam as risadas
O cheiro de jasmim passava
E aquele gostinho de bombom

Onde estava guardado esse risco?
Onde estava guardado esse risco?
Onde estava guardado esse risco?

Se não fosse aquele olhar longínquo
Essas pedras rolando do peito
E essa mão que chora mais forte

Era quase um semblante
se não fosse a morte 



II


INCELENÇA

                                                                    Numa Ciro


Mestre Vitalino


Excelência, Incelença, Inselência: Canto fúnebre, entoado aos pés dos mortos. Cantado sem acompanhamento instrumental. 

Ver: Dicionário do Folclore Brasileiro - Luiz da Camara Cascudo.
Editora da Universidade de São Paulo, 1988. 




O Enterro
Cândido Portinari




Finadas horas! 

Quem nos deixou aqui no nosso firmamento

será velado com todo amor,

reza, choro, cantos e lamentos.

 

O silêncio grita na sua voz.

Calada voz não diz amém

sempre que a reza recomendar

sua travessia rumo além.

 

Incelença, encontre a paz

pelos reinos do sumiço.

A saudade leva e traz

ilusões de paraíso.

Incelença, encontre o tempo

distraído eternamente

e no altar do esquecimento consagrar:

 

Queixo, lábios, olhos, nariz;

ossos, órgãos, sangue, cabelos e as mãos... 

Li ri ri ri, ri ri ri

 

Excelência, nestas flores:

os adornos do tormento,

a moldura do seu vulto,

vida e morte num momento.

 

Excelência, a luz das velas

representa a luz divina,

nosso choro embeleza,

sua alma ilumina!

 

Finadas horas! 

Quem nos deixou aqui no nosso firmamento

será lembrado com todo amor,

reza, choro, cantos e lamentos.


Finadas horas! 

Quem se cansou e foi morar no outro mundo 

será que sente

a duração desta saudade em um segundo?





III


O SERTANEJO e as CAATINGAS

Numa Ciro




Caboclo de Lança do Maracatu
Arnóbio de Barros


                      
Para Nonato Gurgel 


Umbuzeiro

  

O sertanejo dança e canta o seu combate
O sertanejo faz e enfeita a lança


Macambira



Caatingas Guerreiras velhas 
Juremas filhas
Macegas mudas
Inimigo perdido no mato






















O sertanejo oferece o seu combate

O sertanejo reza e limpa a arma 

Quem afronta o Sertão não espera

A sentença é certa 

A fugida é bela 

Sai risadas da boca do mato          


Cactos



Imponentes macambiras de tentáculos
Labirintos de galhos
Caatingas guerreiras velhas
Surpreendem 
O inimigo entre cactos
Caatingas guerreiras velhas
Defendendo os actos


















Os guerreiros invisíveis inegáveis
O guerreiro vê e não é visto
Caatingas guerreiras velhas
Urtigas brabas  favelas fogo
A queimada é na pele da tropa

Os guerreiros invencíveis indomáveis
O guerreiro surge sem aviso
Caatingas guerreiras velhas
Incorruptíveis  palmatórias sábias
Sertanejo é seu filho de colo
Sertanejo é seu filho de colo






Ouricuri  Culumbi
Araticum  Cansanção  Candombá
Umbuzeiro  Umburana  Mari
Avelós  Ananá  Caroá
Xique-xique  Macambira  Mandacaru
Baraúna  Quixabeira  Cipó de Cunanã
Juazeiro Juetê Mulungu e Gravatá

Sertanejo é seu filho de colo
Sertanejo é seu filho de colo




Mandacaru
quando fulora na seca


                                                 
IV

Sem Sentido



 
 Numa Ciro



Faz favor
Não olhes pra mim
Não me faças sentir novamente
Qualquer sensação de abandono
Sai de vez
Feche a porta sem bater
Como se ainda
Fosses voltar
Eu não quero saber…
O que é?
É
O tempo depois dirá
Enquanto espero vou esquecendo
Vou vou vou
Mas agora vá
Deixe-me sozinha
Como se fosse eu quem não te quer
Silêncio
Meu coração precisa descansar
Vou preparar mentiras pra que eu possa me enganar
Não te faças de louca
Não faças barulho
O mundo agora parece tão sem sentido

Sai
Antes que eu me perca
Antes que eu me esqueça
E te peça pra ficar

Sai
Antes que eu me perca
Antes que eu me esqueça
E te peça pra ficar 



V

ENGRAÇADO


Numa Ciro


Oi
Fala
Senta
Claro
Um drink
Um beijo

Tuas mãos estão tão quentes...
Por que o atraso?
Nem fazes ideia do conflito
Entre todas as emoções
Aquela estrela voava mais alto
E eu fui atrás
Atrás de cada sonho eu te quero
E quanto mais eu quero mais eu sonho
Mais quero amar
Engraçado
Só me fazes feliz
Olhar-te
E já enlouqueço
Tens esta arte

Engraçado
Só me fazes feliz
Olhar-te
E já enlouqueço
Tens esta arte






VI

GIRASSÓIS ITALIANOS


Numa Ciro






Girassóis italianos

no jarro da sala
Vejo Gaugin nos teus olhos no quadro 
No quarto
Ironia 
Absurdo
A natureza viva musical
Afinal
Ninguém é perfeito
Amor perfeito é assim
Com defeitos
Estranhos jeitos
Ai de mim




Afinal
Ninguém é perfeito
Amor perfeito é assim
Com defeitos
Estranhos jeitos

Ai de mim








VII

MULHER DUVIDOSA


Numa Ciro

NUMA CIRO
foto de 
HILDEBRANDO DE CASTRO





Minha vida não daria um romance
Sou uma mulher duvidosa
Por que você faz isso comigo
Isso não é uma censura
Apenas um escândalo
Estamos dentro do perigo
Por que você não faz isso comigo?
Quem é que está abrindo a porta?
Suspense
Minha vida







VIII

NUMA NOITE


Numa Ciro

Vi a noite passar lentamente
arrastando as sombras.

Não falava, não pensava, não queria, não calava.
Eu não via se o tempo passava.
Apenas a noite
Inteira
Passou por mim delicada.

Você deve imaginar que eu chorava.
Mas não
Eu não chorei

Não posso dizer que sofri.
Não sei o que se passava
Naquela noite
Eu apenas não dormi.




IX

EXIGÊNCIAS


 Numa Ciro



Numa Ciro no Monólogo Cantante  
A Peleja da voz com a Língua
foto de 
Cláudia Ferreira



Cada vez que você vier
Eu quero estar mais simples
Já sofri demais
E começo a entender
Amor que é amor não dói
Prazer é fruta que só dá em pé de amor
Estou em pé de guerra com o ciúme
E aqui com meus botões eu digo
Cada vez que você vier
Eu quero estar mais linda
E faço sérias exigências à felicidade

Faço sérias exigências à felicidade




X


TEXTO INCERTO


 Numa Ciro



Sim 
Eu li
Mas não quero aceitar esse jogo
Sim 
reli
Mas só posso entender se disser pra mim


Olha os espaços sobre os espaços
Vem
Cores e traços
Horas e atrasos
Marcam o amor
Por quem

É impossível saber como estou
Vê-se o que não se 
Nada é tão certo   
Nem tudo é real
Viver é passar e esquecer

Corte os espaços entre os espaços
Vem
Cores e traços
Horas e atrasos
Marcam o amor
Por quem

Sim 
Eu li
Mas não quero aceitar esse texto
Sim
Eu li
Mas só posso entender
se disser pra mim

Trace os espaços
Toque os espaços
Vem
Cores e traços
Horas e atrasos
Marcam o amor 
Por quem









terça-feira, 22 de outubro de 2024

Disco Numa Ciro  



Capa do Disco

de Hildebrando de Castro 

a partir do Quadro de Hildebrando de Castro









Numa Ciro numaciro50@gmail.com

seg., 16 de mar. 17:37 (há 23 horas)
 
para Henrique


Amado Henrique,
Διδασκαλε!

Eu quero muito que você escreva para o livreto que acompanha meu primeiro disco NUMAciro, ainda sem título, sobre o qual falamos algumas vezes.  Escolhi para você, a canção A ARTE É MULHER, uma das minhas parcerias com Lan Lanh. Você não  precisa adivinhar porque a escolhi e por que estou tão curiosa para ler o que dirá. 

Segue o link do meu blog onde você pode reencontrar a letra.

ευχαριστώ,
Numa

Henrique Cairus



11:04 (há 5 horas)
 
para mim



Querida Numa,


quando você me mandou a letra da canção que você compunha com Lan Lanh, eu havia recebido uma pergunta de uma colega: o que pode vir antes do início? Ela me perguntava isso, porque havia escrito algo para a minha tese, e aquilo que lera não lhe pareceu suficiente. Foi exatamente quando eu pensava em como ser mais claro que você me enviou essa bela canção, uma obra prima cujo primeiro verso é "Eu conheço a origem da Origem".
Era isso que eu procurava e não sabia dizer! A prosa não dá muito conta disso.

Percebi, enfim, que o que eu queria dizer não cabia em prosa, e não sou poeta. Não sou, mas você é. E, em vez de tentar algo acima do meu alcance, tomei a canção como epígrafe daquele capítulo, o único capítulo da Tese com epígrafe, e não é exatamente uma exceção, tampouco é precisamente uma epígrafe: é o reconhecimento de que a arte (que é mulher), e só a arte, significa sem o que não se diz, como o oráculo de Heráclito. A linguagem da arte, da tua arte, está acima da linguagem, como a origem da Origem. A prosa e a poesia: "e quem há de negar que esta lhe é superior?".
A origem da Origem está também na origem desta nossa relação, que há muito não cabe na amizade: a arte nos apresentou. Lembro, cada vez que saía de casa, da primeira vez que te ouvi cantar da janela, com sua voz contralto tão bem colocada e com seu repertório inusitado: forma e conteúdo que fecundaram minha mente de uma curiosidade embrionária que se desenvolveu em amor, a partir de uma carona que te dei e que ensejou que eu conhecesse a dona da voz pela voz da dona também de grande parte de um repertório que encanta a quem o ouvir, ainda que seja como o "biscoito fino" de Oswald.

Tua arte "inventou a existência antes do Nada, quando o Ser era o Tempo em vertigem". 

Obrigado, origem de minha Origem, arte magnífica de Numa Ciro, tua própria arte.
E todos riem com a sua brincadeira!



Numa Ciro: o nome de uma arte


Por Henrique Cairus


A mim não me pareceu nada estranho que só agora surgisse o disco de Numa Ciro. Este objeto, o disco, agora disseminado -- mas não rarefato  -- em bits virtuais, foi criado para reproduzir artes com nomes que lhe são próprios, a música, a canção, a oratória e tudo que diz respeito ao som. O disco privilegia um sentido, e é claro que já está claro que a Numa não cabe num sentido, não cabe num significado, tampouco num significante, não cabe numa direção, não cabe em Aristóteles e se ri de Platão. Numa é o transbordo do sem cabimento; do que inunda. A própria sinestesia lhe é pouco, porque não dá conta de sua potência criadora. Uma potência que ela reivindica também como mulher, o gênero que cria o gênero, esse gênero de expressão que não tem outro nome senão o de Numa Ciro. Uma mulher que carrega dois homens, dois imperadores, no seu próprio nome: o Ocidente de Numa, o Oriente de Ciro.

Sua arte é a tradução do encontro absolutamente singular entre o conhecimento e o sentimento, e esse encontro traz a indelével marca de sua lida semisecular com a psicanálise, com a literatura e com a filosofia.

A Relva da Campina tomou a ousada resolução de não sair da frente para dar passagem ao Filósofo, e, assim, faz o contraponto ao Trupizupi, em homenagem, reconhecimento e identificação pelo avesso. Um avesso que se vira do avesso na última faixa do disco, a única que não é de sua autoria, mas que traz uma assinatura em que a interpretação já se funde e se confunde com a própria autoria. Bráulio, Numa e todos nós somos para sempre hipopótamos tartamudos.

A arte, esse substantivo feminino muito singular e por vezes abstrato, uniu Numa a Lan Lanh que, juntas, mapeiam com a precisão da qual a filosofia é incapaz a relação entre o ventre e a arte: a criação é uma só, antecede o nada, a origem da origem. O que cria a criação não é criatura, o que cria a criação é arte. A criação nasce grávida da criatura, do ventre feminino semeado pela pulsão invocante que antecede o próprio Outro, mas que se realiza nele. 

O gêmio gênio de Tânia Christal aparece como um desses ventres disponíveis à criação, e é ali que o sujeito se encontra mais fortemente com o objeto, é ali, na voz de Tania, presente na vigésima quinta hora de toda as letras (e não só nas que assina), que a biografia de Numa se encontra com suas outras grafias e agrafias. É só prestar atenção no detalhe. 

A poesia tem um compromisso inextinguível com a música. Eram um uno, e, na verdade, nunca deixaram de ser. Numa sabe disso. Sempre soube. Sabe-o também Flaviola. E não há pouco tempo uniram-se Numa Ciro e Flaviola para também devolverem definitivamente a união ao que nunca se desuniu: métrica é compasso, pé é dança, nota é sílaba. Safo sabia.

Safo de Lesbos, segundo Platão, a Décima Musa. De Safo, sabe-se que se apresentava cantando, com uma performance solitária em meio a um público atônito. Sabe-se também que foi muito célebre pelas suas apresentações, pela sua música, pelo seu canto, e provavelmente por outros encantos. E de todo esse fenômeno que foi Safo, o que temos são apenas as letras de suas canções, e de pouquíssimas delas. É uma sobra e uma sombra do que foi Safo, mas a grandeza de sua arte era tanta que o pouco que temos compulsa nossa imaginação a completar esse quadro que frequenta a mente de quantos a leem. A poesia sobrevivente de Safo não a reduz, mas a recria eternamente.





OUTRA CAPA 




Tela de José de Barros 
A Cantora 



NUMA CIRO

                                                         Braulio Tavares


    A voz de Numa Ciro é como um aparelho de rádio artesanal, captando rádios piratas pelo mundo afora, sintonizando frequências que estão vibrando ali o dia inteiro, a vida inteira, para quem souber encontrá-las. São frequências de onda que trazem cadências poéticas, flashes visuais, trocadilhos inconscientes, harmonias semi-tronchas, melodias saltitantes, recados urgentes do futuro que ficam ricocheteando de mente em mente até chegar em algum lugar do passado, que é onde nós estamos.

    É uma voz-memória, passeando pelas ondas do espaçotempo como um rio que passa pelo fundo de todas as casas do mundo, um rio correndo devagar, passando, recolhendo, recebendo, trazendo coisas que boiam, que afundam, que ressurgem na voz de quem fala deitado de olhos fechados, na voz de quem canta a sós num palco escuro sob o facho de luz do holofote, no oco de um teatro repleto onde todo mundo escuta e prende a respiração, porque a voz canta “a capella”, y no hay banda.

    Uma voz como um disco voador, um disco de um lado só, um disco digital que não é feito de matéria mas apenas de luz que se lê, se lê como um livro, um disco-livro cheio de letreiros luminosos, de néons piscando, de psicodelias, de prismas dividindo a luz em letras.

    Nas canções que Numa Ciro escreve ou recria existem, amarradas, num nó feito de todos nós, duas pontas, duas extremidades: a Via Láctea e o fundo do quintal, o inalcançavelmente grande e o lugar de nós todos. O grande atrator das galáxias e o terraço lá de casa onde os amigos se reúnem em termos de cerveja, tiragosto, violão de mão em mão e repertórios compartilhados. Porque há que ouvir dez mil músicas antes de se fazer uma, há que escutar mil e uma noites antes de se escrever a primeira história.

    Numa Ciro tem a voz de quem trabalha ouvindo, trabalha colhendo das histórias alheias não o desenho dos fatos, mas o movimento profundo que carrega nossas mentes como a correnteza carrega as águas.

    Esse é o diapasão da viagem, é o tom dessa peregrinação de tantos anos de Numa Ciro em busca da nota precisa, da respiração invisível, da pancada perfeita, da palavra surpresa, da língua solta, da carne livre, do corpo elétrico que o mundo de hoje canta, os corpos pequenos que vão para onde vai o mundo grande, mas seja para onde forem, vão cantando.

  


Numa Ciro com 2 anos


DESPROPORÇÃO


Música de César Lacerda
Letra  de   Numa Ciro




Quando eu era menina tinha 
um rio enorme atrás da minha 
Casa
O pensamento se ouvia 
No espelho e no fundo

Hoje
Meu olhar de paixão te ver 
Maior que todas as coisas do mundo
Rio de sonhos

Hoje 
Aquele rio enorme é o rio riozinho
na desproporção do meu olhar 
Adulto
Essa paixão
Será que tem tamanho?

Ainda
A casa o Rio a menina
O pensamento no espelho e no fundo 

E o meu olhar te procura 
Em todas a margens do mundo


oi, Numa, querida!


    recebo o seu e-mail em festa! que felicidade imensa saber que a nossa canção irá abrir o seu disco - sinto-me tomado por um  sentimento nobre de gratidão e orgulho! ainda além, saber que você escolheu iniciar o disco cantando à Capella, faz-me ainda mais mais feliz!

     fiz aqui os cálculos: nos conhecemos em 2009 (lá se vão 11 anos...!), quando você estava em cartaz no Rio de Janeiro com o seu espetáculo “Numa Noite Quatro Luas”.  É preciso que eu diga antes de tudo: muito do que sei sobre música popular brasileira e sobre como fazer um espetáculo com canções brasileiras, uma tradição dramatúrgica e uma modalidade de  performance muito nossa, desta nossa terra, aprendi com você. vendo você retorcer o sentido de tudo e reinventando mundos com o seu “monólogo cantante”.

     “Desproporção” abrindo o disco, à Capella, apesar de parecer funcionar como uma introdução é também, por sua vez, um epílogo; e ainda, bem antes, a confirmação de uma trajetória de elaborada pesquisa artística. quando penso na nossa canção, claro!, vejo ecoar Caieiro: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia...”. as águas onde despejamos nossas lágrimas, sonhos, perguntas, desejos... 

    lembro-me das nossas longas conversas, quando eu ainda vivia no Rio de Janeiro. você me contando sobre a sua Campina Grande, sua infância repleta de fantasia, a menina Maria do Socorro encantada pelo som das coisas, nas vastas tardes de solidão. eu, que também nasci no interior do país, sei que viver a infância nestas cidades aprofunda o que carregamos dentro. o que sentimos e o que imaginamos.

     quando penso em você, Numa Ciro, este seu heterônimo, penso que ele nos convida sempre à transfiguração do conceito de idade. Numa é a avó e a neta, a mãe e a filha, e ainda além, o que virá, o que não nasceu - eis aí o que conecta as ideias de ancestralidade e o que a física quântica deseja saber sobre o tempo. a desproporção é saber-se sem cabimento: você, o seu olhar, seu sentimento do mundo (façamos também ecoar Drummond!), não cabe num só corpo, numa só existência. o que lhe é desproporcional não é o rio, a saudade, a casa, a infância, a menina. mas sim, a vida. a vida transbordou o coração imenso que você carrega no peito e transformou-se em som. o som da voz que canta.

 

um beijo muito carinhoso!



César Lacerda
         



A ARTE É MULHER


Letra Numa Ciro
Música Lanlan






Eu conheço a origem da origem,
Antes mesmo de ser originada.
Inventei a existência antes do nada,
Quando o Ser era o Tempo em Vertigem.
Inventei a casa e a viagem.
No advento de Galáxia, fui parteira.
Eu cuidava do berçário das estrelas
E ninava cada uma nos meus braços.
Assoprava a poeirado espaço
E elas riam com a minha brincadeira.


Vi a Terra engravidar do universo
Pelo sopro da natureza. E a criação
Era simples rotina e diversão.
Não havia discordância no inverso:
Se da luz fizeram-se os versos,
Das sombras da noite, a ficção.
A verdade foi a joia da invenção.
A diferença, melhor aproveitada.
Era o Caos, folia organizada,
O princípio da humana inspiração.

  
A mulher apareceu inesperada,
Quando eu era o protótipo de um Drone.
Na filmagem, escutamos o seu nome:
A primeira palavra inventada.
A Mulher, por si mesma, foi criada.
O pensamento saiu da sua boca:
Antes disso a linguagem era oca.
Ao sentimento, ela deu um coração.
Inventora do Amor e da razão,
A Arte é Mulher.






Lanlan



 PSICODÉLICA


Música de Lanlan
Letra de Numa Ciro



Posso viajar o ano inteiro
Sem jamais voltar ao mesmo endereço 
E mais
Dou a volta ao mundo em um segundo
Volto atrás e encontro o velho futuro


Sou assim
E quem me vê assim
Diadorim 
Ontem mesmo a figura estranhou
Eu vou sair
Alguém vem junto?
Eu
Eu vivo assim
Mudo com o tempo  
Tenho a sorte a meu favor 

Não sou pessimista
Meu Jaguar veloz na pista
Ligado em Rock and Roll
Dizem que sou rica
Mas não tenho ainda um disco voador                                                 


Sou assim
E quem me vê assim
Tão free again
Ontem mesmo a figura se mandou
Não dormi 


Agora já... ... ... 
...esqueci.


São Dumont!


Já de malas prontas 
e o check in… 










Dizem que sou rica

Pego a dica e vou bancar meu carnaval
Sou pós-modernista
Faço antropofagia sideral



No terraço em minha cobertura
Posso dar o pouso à nave futura
Um ET sentado em meu carrão 
Banco a carona e a tradução 

Meu pão


Vem me contar a sua história
Bagunçar minha memória e meu cartão
Vem me dizer se onde mora
Tem registro de humanóide imigração
Vamos dar um giro na galáxia
Até que a morte não desligue o coração






Vigésima Hora


Música  Tânia  Christal
Letra      Numa Ciro


1984
na exposição de Hildebrando de Castro
Petite Galerie
Ipanema - Rio de Janeiro

Preste atenção no detalhe
Na vigésima hora
Quando vento levou
Ahhhhh
Essa noite
Infinitas vezes
Reprise
Já decorei esse filme
Estou louca louca louca
Preste atenção no detalhe
Preste atenção no detalhe
Preste atenção no detalhe
Preste atenção
Louloulouloulouloulouloulouloucaaaaaa
Louloulouloulouloulouloulouloucaaaaaa



XOTE À PRIMEIRA VISTA



Letra de Numa Ciro
Música de Tibor Fittel





Quem me chamou de meu amor
Não disse nada 
Só olhou 
Eu entendi
Correspondi imediatamente
Aquele olhar de sol nascente irradiou e eu ouvi

Ouvi chamar:
Vem meu amor!
Não disse nada e começamos a dançar
Rodopiamos infinitas vezes

A sanfona não conteve o toque de acompanhar


Samico
O Xote vai dizer 
O que eu não disse nem a mim
Nem a você
No Xote a gente conversa à vontade
Faz amor 
Mata a saudade da saudade que vai ter



O Xote vai dizer 
O que eu não disse nem a mim
Nem a você
No Xote a gente conversa à vontade
Faz amor 
Mata a saudade da saudade que vai ter


Gravada no Estúdio PlayGround. 
Sanfona Tibor Fittel
Percussão Lan Lanh 
Voz Numa Ciro


DO ESPERAR


Música: João Donato
Letra:   Numa Ciro







Letra de Numa Ciro para João Donato

Passo a passo eu vou
Esperar quem vem
Quem me disse eu vou 
Ao baile com meu bem

Esperando ando
Sustenido eu vou
Improviso um bemol
A esperar meu amor


O Baile está divertido
Já ensaio uns passinhos
Estou Muito à Vontade
A esperar meu benzinho

O Baile está divertido
Já ensaio uns passinhos
Estou Muito à Vontade
A esperar meu benzinho


Esperando eu sonho
É bom imaginar
Ter meu bem nos meus braços
E juntinhos dançar

Um bolero não dá 
Pra dançar sem você
Tango então nem pensar
Só se for pas-de-deux

Esperando o meu par
Pra dançar Pas-de-deux
Já dancei mui solito 
Rock and Roll Iê Iê Iê 



Pra dançar à vontade
Bem de bem de pertinho
Pra pedir com os olhos
Nem que seja um beijinho

Foxtrot y Mambo
Rumba Samba e Baião
El Son Salsa Calipso
Chá Chá Chá no salão


O Baile está divertido
Já ensaio uns passinhos
Estou Muito à Vontade
A esperar meu benzinho

O Baile está divertido
Já ensaio uns passinhos
Estou Muito à Vontade
A esperar meu benzinho

O baile está divertido 
O baile está divertido 
O baile está divertido 
O baile está divertido 

Tranquilidade!


DADA ISSO


Música de Jean Claude Burg
Letra de Numa Ciro


Claude Burg e Tânia Christal

Mundo excessivo
Impressionista o céu
Sonho esculpindo
E as nuvens nem aí
São livres
São livres

Cartões non-sense ao nosso 
Olhar comum

Instantâneas
Impressões

Nuvens cubistas
Surreais
Feras soltas
Cavalo-de-pau
Vacas sorrindo
E já não riem mais

Aonde foram?
As nuvens passam
Ao cabaré voltei

Passou Man Ray
Passei batom
Não leve o sol

Dadá caos
Artes pelo chão
Tristan
Mundo lê



Mundo excessivo
Expressionista o mar
Ondas dada ondas
VanguarDada
Dada
Blues

Minha neta
Vai
Gostar de blues
E o filho
Do meu filho


Dada Hannah Dada Emy
Dada Elsa Dada Sophie
Janco Hans Arp Hugo Ball
Lacan Dali

Criança casa
Brinquedo chão
Quem tem razão?

Não é coisa
Sim é outra
O que dirá “Pois não”?

Dadá água
Da Fonte não
A do
Salão

Dadá Fonte da Arte
Dá dá isso
Dá dá isso













Com Hermeto eu fui à feira de campina

Vi Donato no baile com Ivone

Tânia Christal foi quem me deu o nome

Tibor Fittel  César Lacerda quem me ensina!

Se Bráulio é o Raio da Silibrina

Flaviola é ex-tudo estravagante

Zé Miguel Wisnik o elegante

Socorro Lira  paraibana como eu

Sou dadaísta e Claude burg esclareceu  

Sou Lan Lanh  sou Gonzaga  sou  Cantante





















Autores






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Henrique Cairus
Professor Titular- UFRJ

hcairus@ufrj.br